quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Gestos

Os dias parecem-me todos iguais, menos os Natais. Ou será o contrário? Os Natais sempre iguais, e os dias desirmanados, aconselham a que se sobreviva a todos os contrários?
É esta longa caminhada que sem saber onde acabar, despropositada, arrasta atrás de si, uma longa espera.
É este rebuliço que rompe todas frentes, e todas as frentes são as mesmas, sem começo e sem fim.
É este continuado posto, a parar as horas, a determinar os dias Natais e os dias normais.
E é tudo carimbado, selado, organizado em prol de todos os que não têm Natais.
Mas, e os dias indeterminados, as horas mortas por detrás de um relógio antigo?
Antigos são também todos os gestos a precisar renovar os traços das palmas das mãos.



Dolores Marques

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Melodias

Continuarei como sempre a contrariar os ventos. Já não me vestem como outrora.
Sairei para a rua quando chegarem novas melodias tuas.
E seremos brisas e cantos novos. Dançaremos nus quando caírem as novas chuvas.
A nudez é una!
Planaremos pois, enquanto não chega a primavera.


Dolores marques - ônix 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Além dos limites do Eu

Há flores num espaço aberto
Molho com a minha saliva, as pétalas roxas
Cubro com os meus lábios, os caules avermelhados

Há um lugar ermo, amparo de um sonho distante
Ergo os braços ao encontro de um punho fechado
Há um pensamento abstrato a roçar no sobrado onde me deito
Bajulação de um momento
E só…o corpo é figura desenhada nas tábuas polidas pelo tempo

Nas memórias, a ante-manhã que me diz “SIM”
Um amontoado de células vivas, amarrotadas no sótão dos afetos, que me diz “NÃO”
A dor contrai-se perante o som agudo, onde o existir é um puro manifesto
Mas há um corpo deitado na acalmia da terra, coalhando o sereno da noite

Sobre o dorso, um caminho estreito
Na longitude dos braços, um carreiro oblíquo
Nas pernas, a fortaleza a caminhar para o vazio ainda virgem
No peito, um batimento incerto, tal um relógio a emendar o tempo
No rosto, as rugas, escancarando a única certeza das estátuas caídas
Nos olhos, dois sinais que indicam um olhar a perder-se no escuro

Ali se propaga e se desmembra por todos os quadrantes do seu universo
Ali se entrega ao submundo e se cruza com os fogos que o consomem
E eu, atendendo à nova teoria do pensamento
Escondo-me
Rendo-me aos contrários
Sustento o manto que me cobre a alma

Há no topo da montanha, um sem-fim de terra
É ponto de passagem a um corpo que balança sob as nortadas baixas
Encontros que espelham a dor
Desencontros ameaçadores das fugas por entre dentes
Uma boca que reluz no escuro

(Um quilate de ouro a mais na dentição genuína e demolida na boca do mundo)

Há um sonho que acorda a madrugada
E eu, póstuma constelação à espera de outra marca do tempo
Que me conte os ossos e me endireite o corpo
Que me remende a sorte, para caminhar a Norte
Que me reconte as sobras que ficaram perdidas nos bolsos
Que me refaça o meu inverso

E o mar, sempre o mar a galgar sobre a terra orvalhada
Sem no entanto, resistir ao mundo que o fez mar salgado
Tempero dos que falham no ponto
Onde o lusco-fusco se fez vida
Alem dos limites do eu


Dolores Marques; (Ônix in Fios de Luz/2011)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Abnegações

Transformar o nosso olhar num lugar inóspito, onde o sol despeja todos os detritos luminosos, e não abrirmos os olhos para a segunda metade de nós. Ir ao encontro do mar onde guardamos os restos mortais de um corpo que quer a todo o custo vencer a tormenta.

Resíduos que se afogam num mar de lágrimas que não sabem onde mora a fonte de todas as abnegações.

Dolores Marques; (Dakini - Ilusorium/11)
Foto DM -  Bem perto do mar

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Ultimatum


Debrucei-me sobre as aspas de uma frase 
Oblíqua 
Saliente
Tosca
Disforme
Mas de cintura fina com um brilho mate
Distante
Tão distante estava eu antes de ela me reescrever

Fui caminhando sem ver
Fui cessando sem saber
Havia um só tempo para seguir aquela linha inteira
Que traçava um caminho aposto no meu imaginário

Já não sou eu 
Que quero ser uma frase inteira 
Num céu sem cor
São elas
As aspas que me fazem ser alguém
Ou nas horas mortas
Ninguém

Já não sou eu 
Que quero ser uma palavra vã
Achada por morte sã
Catalogada e alegorica(mente) certa
Mas indiscriminada
Sujeita às diversas alterações morfológicas
Resíduos que se despejam nas marés vivas 
De um desejo traído
Cuspido
Sujo

Caiu agora desse mastro antigo
Desdita esta sorte mal(dita) 
Feita em pedaços
Entregue à dor das palavras sobrepostas
Que viajaram caladas 
Nas costas arqueadas 
Dum marinheiro já morto

Deram um salto no mar alto 
Afogaram-se inteiras 
E traçaram uma linha sobre a mudança das marés


Dolores Marques (Ônix; A Voz do Silêncio/2009)
Foto: Eu que quase transformava a minha sombra num grafiti estatelado no chão da minha aldeia

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Princípio do fim

Isto que começa aqui 
E termina aí
Isto que nasce com lei
É o princípio do fim
Do único fim

Tudo se apaga 
Tudo é a noite fria
E os dias sem lei
Sem nenhuma ordem
Que ordene 
Um novo princípio

Isto que começa agora
É a noite fria
São olhos fechados
Para dias futuros
Isto que começa aqui
É um caminho sem lei

Isto que começa aqui
E termina aí


Dolores Marques – Dakini 2013

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Elipse

Caiu desajeitado
o corpo
desprotegido e nu

a auréola ainda se mantinha 
intata na sua forma elíptica

fechou-se o círculo
que traçou em pontos minúsculos
a linha contínua
que deu alma ao corpo

Agora deveria ser o momento de:
“o seu a seu dono” 

Sim, porque sem dono
será o mesmo que viver sozinho e sem trono

Dolores Marques: Ônix 2013
Escultura: Ricardo Kersting

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Sem limites

Por vezes sou quem pensava não ser
Tenho dias que me sobram as horas
Tenho horas que me faltam os dias

Somos todos tão iguais, que às vezes
Me parece que o mundo não gira
E sempre que sigo pelo teu caminho
Me distancio cada vez mais de mim

(É um tempo sem limites
Irremediavelmente sem um único fim)

DM

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Já é tempo

Lamenta-se o tempo e os movimentos contrários à volta dele. Enquanto isso, o sol esconde-se na linha do horizonte. Já é tempo de acontecerem noites de verdade aos nossos olhos e dias solarengos no nosso corpo. Já é tempo de nos concentrarmos nos momentos que marcam o presente, sossegam o passado e nos dão esperança no futuro.
E se nos juntássemos todos e derrubássemos as torres, contrariando a pontaria desenfreada dos ponteiros dos relógios?

Dolores Marques (Dakini)

Acontecer num sorriso

Adormecer sem um sorriso, é o mesmo que acordar, mas com vontade de voltar a dormir. Talvez a vontade de sorrir se manifeste no sono. Enquanto dormimos, pelo menos sorrimos, nem que seja para um sonho inesquecível. Sim, para que nos lembre de como é bom adormecer e acordar. Enfim acontecer num sorriso.

DM in Dakini (Eventos)

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Sozinhos

Não sei caminhar sozinha
Não sei falar sozinha
Não sei sorrir sozinha
Não sei calar-me sozinha
Sozinha, sentirei sempre um nó no estômago
Por tantas voltas e reviravoltas ao mesmo nó que nos ajuntou um dia
Porque sozinha, eu sou sem ser, estou sem saber estar
Vou sem saber voltar, ao encontro de ti
Que continuas por aí
A cortar curvas enredado em contracurvas
Mas também sozinho sem saberes onde me encontrar

Dolores Marques - ÔNIX 2013

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Dimensões VII – Fuga


E porque a vida me toma de assalto
Eu fujo 
Entrego-me à solidão dos tempos
Num tempo meu, e encontro-me

Lá, onde o mar é azul 
E as ondas são verdes
Lá, onde tudo morre 
Aos meus olhos cor de prata
Lá, onde a dor é mais leve 
Lá, onde o silêncio é um sol dourado
Ao cair da noite



Porque me quero ausente da terra 
Faço do céu um novo caminho
Onde o azul é forte
E as estrelas meu norte
E minha sorte
E o sol me diz de mim
Quando ainda era uma criança
E em teu colo chorava
A dor da partida

Porque a minha ausência 
Me traça um novo destino
Eu vou a par do teu fogo
E caminho contigo 
Até ao fim do mundo
Deste mundo
Que tomo para nós
Num corpo são 
E desesperadamente
Belo…o seu rumo

Trago-te um tempo de abraços
Uma cesta de beijos
Um regaço, ajustado a nós
E não me quero ir daqui
Sem me rir contigo

Quero um corpo onde me deitar
Uns olhos onde me afogar
Uma esteira onde me enrolar
Quando daqui me ausentar
Mas tenho medo da fuga
De me ir sem te encontrar

Quero fugir, mas não, sem antes 
Me desocupar da desgraça que ocupo
Não, sem antes me consentir 
Não, sem antes me desmentir
Não,  sem antes me despedir daquilo que sou 
Da minha realidade, quase, quase inacabada
No ar que respiro

Não sem antes me encontrar 
Verdade na tua verdade
E acabar recomeçando
Por ti…Amor
Só por ti
E que a tua força 
Me tome esta minha vontade 
De fugir, fugir, e ficar
Lá onde o mar é azul
E as ondas são verdes


Dolores Marques - ÔNIX (A Voz do Silêncio)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Novo movimento estrelar

Existem sempre outros mundos que são correntes em estado de abstração. Dá-lhes da tua cor! Servirá para renovares dentro de ti, os rios passados, transformados em lodos e lamaçais.

Ao fundo, há sempre outras ruas em outros mundos e um novo movimento estrelar.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Já se aventuraram num passeio à cidade dos mortos?

Já se aventuraram num passeio à cidade dos mortos?
Completamente alucinados andam os vivos, com olhares cabisbaixos, a tentar descobrir na terra, a mesma terra, que irá receber um dia, algum resto de vida que lhes faça reviver os momentos mortos - aqueles que mataram em vida.
Querem agora resgatar todos eles, como forma de se redimirem dos pecados todos que cometeram. 
Nas mãos levam flores de todas as cores. Será para conseguirem renascer mais primaveras, e com elas, as forças que baixaram, sem mesmo lhes ser perguntado se queriam terminar neste amontoado de lágrimas que vão irrigando, pedacinho a pedacinho, a terra? As árvores, algumas estrondosas, com os seus ramos gigantes tentam parar o vento. 
As lágrimas caem como gotículas de orvalho pela manhã. São leves e brandas umas, grossas e violentas outras, que correm como levadas sulcando a vermelha face de quem não pregou olho para velar os mortos. Esta atmosfera que cobre a cidade dos moribundos, tem sempre algo de misterioso a rondar os corpos que vão caminhando em silêncio. Ouvem-se as pegadas de uns, e alguns rumores a tentar saltar fora da cidade onde os vivos respiram ainda sob esta atmosfera turva. O cheiro a terra, o cheiro a erva, o cheiro de todas as flores, fazem-me pensar no que virá depois, quando já não houver espaço para tantas vidas a cair por terra.

Dolores Marques - Dakini

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Movimentos


Afundava-se num abismo tão profundo que se desorientava cada vez mais. Orientava os seus passos, no sentido da
maquiavélica desorientação. Esta sim, a trai-lo a cada pensamento que ele julgava equilibrado. 
Essa necessidade urgente de galgar degraus, levou-o tão alto, que se permitiu ser outro e não aquele para o que veio. Foi um ponto quase final no caminho da sua evolução. O mediático afloramento de um momento de vitória, a desejar glorificar-se, provocou-lhe uma força incapaz de se mover, de sair de onde estava. Uma luta inglória. A força que dela provém, é somente um movimento indiferenciado, capaz de lhe transmitir informações duvidosas. 
Depois, não sobrou nada desse estado inerte. Só um momento que cega qualquer um que se julga seguidor da sua própria alma. Mas, só ela sabe onde e quando ele irá cair, para, cá em baixo lhe amortecer a queda.

Dolores Marques : Dakini 2013

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Buracos negros

dos seus olhos escapam-se remendos toscos
sem brio estão as ruas descalças
orientando-o na sua última sagração

os farrapos tapam-lhe as feridas ainda abertas
por conta dos seus passos em falso
diretos ao cadafalso
decepados estão agora os caminhos longos

a floresta veste-se ainda dos últimos
pensamentos da noite
ornamenta-se a exaltação da fé

a escuridão dos dias aconteceu breve
no altar-mor da catedral de todos os corpos
nos becos crescem gemidos quentes
a quererem matar a fome de todas as ruas

na terra, repousam ainda da última boda
os caminhantes que chegaram
dos devotos lugares
nunca mais se viram a pisar o pó do caminho
onde nasceram as urtigas
amaldiçoados vermes que concebem a ilusão
e se alimentam da humildade dos pobres

a ânsia em se intitularem
exímios predadores na passagem das horas
deixaram-nos de boca aberta
até engolirem o último sermão

alimentaram-se do pó da estrada
e as suas almas choram pela incúria
dos seus movimentos em dó

nada como se cruzarem
com os passos de quem chega tarde
para cedo se alimentaram na malga que dança
nas mãos dos mendigos

caminham agora todos juntos:
os mendigos, os indigentes, os fiéis, os infiéis
e todos os santos que baixaram do céu
os novos sacramentos

caíram de fome num buraco sem estio
em becos frios sujos e sombrios…


Dolores Marques - 2013

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Confusão



Um dia 
Quando eu
Deixar de ser 
A tua razão
Já tu te sentes
Com outra motivação
Para me dares razão

Vê bem
Como se compõem rimas
Com esta confusão

Baralhação
Essa falta
De razão
Que tens 
Quando te falta
A interligação
Entre a razão
 E a emoção
Talvez por falta
De meditação!

domingo, 1 de setembro de 2013

À descoberta

Fiquei por aqui a pensar, mas sem pensar em coisa nenhuma. Nada!

E eis que surge dali, a tal promessa de raridade tal, que me fez ficar. Só ficar, para ver como seria brincar com o novo tempo e descobri-lo num só verso.

Foi só um momento, porque chegou de novo este peso morto - o pensar que definiu este estado ausente, esta forma única, que me faz ser nada mais que um verso no reverso do tempo.

DM (Dakini)

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O absurdo caiu sobre a Torre de Babel

ninguém me diz
que mundo é este
que tempestades
estão para chegar
quantos ventos
irão tardar

esta brisa
já não me toca
como dantes
no meu corpo
ainda à espera
da última viagem

estarei pronta
mas já não sei
onde ficaram
os meus olhos
nem mesmo
do seu último
sacramento

sei que se abriram
ao novo céu
que baixou à terra
consumindo tudo
até à última bolha de ar

lembro de muitas
noites acordada
mas não saciada
por esse silêncio
onde enterrei
alguns segredos
bem fundo
era esse lugar

nem sei como
cortar a corrente
ao mergulhar
e nadar nua
sem me sentir sua

é como
um rio parado
sufocado
até consumido
pelos ventos
que tardaram
mas chegaram
finalmente
ao centro
do epicentro

o ponto mais alto
onde me encontro

já ninguém me diz
como recuar
ninguém me fala
de outros mundos
de novos sonhos
agora tudo é
confusão
baralhação
desilusão
a continuação
do nada

o absurdo caiu
sobre a torre de babel

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

As vezes

Às vezes…os dias não são dias
Às vezes…as noites não são noites
Às vezes…os sonhos não são sonhos
Porque às vezes…eu não sou eu

sábado, 3 de agosto de 2013

Memória dos dias santos

Pelo que 
já vi
e ouvi
tudo é possível
tudo é visível
na pluralidade
das coisas
tudo se encontra
no acetinado
do ventre

(no centro da pirâmide
tudo se agita
mas tudo se aquieta)

Pelo que
já vi
e senti
tudo é alegórico
até a passagem
do silêncio
se encolhe
num vazio profundo

(no topo da pirâmide
tudo sobe
mas tudo desce)

pelo que
já vi
e antevi
tudo se move
na imobilidade
do tempo
um tudo gélido
travestido 
delinquente
na memória
dos dias
santos

(na base da pirâmide
tudo aquece
mas tudo arrefece)

Pelo que
Já vi
e até desmenti
tudo é nada
nada é tudo
um tudo moribundo
e metafórico
um tudo que acontece
mas que esmorece

(no espaço etéreo da pirâmide
tudo se ilumina
mas tudo se apaga)

por tudo o que já vi
ouvi e senti
e até antevi
os corpos
já estão cansados!

Dolores Marques - ônix/13

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Até ao Amor

Se não conseguir
mudar a rota dos ventos
e  chegar a ti no teu tempo
farei todos os possíveis 
para não te ver partir
não sem antes te dizer
o quanto esta espera
é desesperante
o quanto me dói 
este medo de te perder
na imensa claridade
que te envolve

tenho os olhos baços
de tanto os arrastar
nesta incessante procura
 da linha que se projeta
até ao ponto final 
do nosso encontro

DM - ônix - Eventos/13

terça-feira, 30 de julho de 2013

Tudo e nada


Era um tempo em que havia de tudo
Menos do mar, menos do céu
Menos do sonho, menos de nós
Era um tempo em que voava
E chegava a algum lugar
Sem mesmo me sentir chegar

Agora tudo é ausente
Tudo tão distante
Tudo tão imenso
Tudo tão disperso
No meu olhar

Nem a terra existe
Para me sentir pousar
Tudo é vazio
Tudo é triste
Tudo é nada
A querer continuar
No mesmo lugar

Dolores Marques - Ônix - Eventos 2013

No alto dos seus corcéis

Caem os sonhos
resgatados pela aurora
soam tambores na madrugada
ouvem-se a trote, trauteando 
no alto dos seus corcéis
os novos cavaleiros de Troia

traem o destino do vento
à semelhança do tempo
demência dominante
nos caminhos traçados
pelos seus próprios pés
em rodopios frenéticos
como os “feios porcos e maus”
deslumbrados e atabalhoados
salivantes e arrepiantes
cospem nas pegadas 
que vão deixando
 no pó do caminho

exploradores, aventureiros 
conquistadores de vidas alheias
a demanda, em marcha fúnebre
pelos calaboiços da sua vontade
a reluzir por dentro da sua meia verdade

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Proclamação vs Redenção



Sorri sem mágoa
sorri e não sejas
um sorriso forçado
a cair no sobrado
pela mágoa que corrói 
negra, como é a fome
de alguns…

olhos de água
esbatidos nas 
novas correntes
que se acabam 
nas muralhas
e se sentem felizes
por estarem perto
e não longe
por serem donos
de um crer 
em todos os Santos
que aos domingos
dançam nas igrejas

sorri sem mágoa
que a tristeza
é dona e senhora
de quem conta
com os dedos todos
as contas 
de um rosário 
pendurado 
nas mãos de cristo

sorri que o mundo
caiu em desgraça
e jaz agora na praça
onde todos os poetas
clamam por mais dores
para se adornarem 
os andores


Dolores Marques; Dakini-Eventos/13

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Piercing's





remendei-lhe os cantos
da boca
para que não vissem
as aliterações a entrar
e a alterar-lhe 
o estado anémico 

tinha um piercing 
esburacando a noite

mas, sem olhos
nem vestes
nem corpo
nem alma 
para guardar
todos os silêncios
que precisa escrever


Dolores Marques; Dakini – Modus-Informe/10

terça-feira, 9 de julho de 2013

Ocasionalmente (o ocaso)



Parecia que estava para lá de tudo
Parecia mas não sabia ainda 
Como chegar lá

O horizonte a equilibrar-se nos seus olhos
E ele a encolher-se 
Sem saber como desenhar naquela tela
O infinito

Aquele emaranhado de cores
Eram agora um portal fechado
Uma mescla de tons sombreados
A caírem como quem cai 
Na terra molhada
E não sabe que o sopro da chuva
É a beleza matinal 
O orvalho de todas as madrugadas

Deixava-se seduzir pelas ameias
Que o prendiam ao passado
Queria tudo o que fosse para ele 
Ainda um canto na inércia dos dias

O sol chegou cedo mas nem assim
Conseguiu abrir os braços 
E deixou que o abraçasse
E lhe desse mais vida naquele lugar

Era o momento ideal para se saber vivo
Era aquele o caminho
O dormitório de todos os seus medos

E ele agora deitado sobre 
As tábuas velhas e podres
Fazia daquele pedaço de chão 
A sua razão
A sua condição
De homem enjeitado 
Numa tela esquecida no sobrado

terça-feira, 2 de julho de 2013

Sonhos



É no mínimo estranho,  quando se entra de forma abrupta num sonho tentando cortar as asas do próprio sonho. 

 Foi penoso, tentar adormecer uma borboleta, para que eu pudesse dormir também, à espera de juntarmos os voos numa noite que ficará na memória de todos os sonhos.


Dolores Marques – Ônix Eventos 2013

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Naturalidade das coisas

a naturalidade 
das coisas terrenas
um farol perdido no mar
uma luz ténue ao fundo 
que espera pela nova ordem 
de todas as coisas naturais

SE...

Se soubesses 
de tudo o que eu sei...
já terias tido o último gesto do adeus
e pedirias ao céu, um novo fundo
para guardares a tua nova história

terça-feira, 25 de junho de 2013

Exílio





Temo que me condenes
Ao teu silêncio
Esse refúgio onde  matam a fome
Outros silêncios
Sentenciados e exilados 
Na minha memória

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O livro de São Gonçalves e Edite Melo




Não há como ficar indiferente à vivacidade dum olhar novo, de uma nova era, a era dourada onde todos somos crianças até ao final de um tempo. O olhar que vê e quando sente, diz claramente e com objetividade o lado harmonioso das coisas, mesmo que a subjetividade o queira levar para outros lugares onde a realeza acontece. Ali existe a real verdade onde a poesia fala e respira a ordem natural de todas as coisas sublimes, de tudo o que é simples e belo, tal como o é, o olhar novo através duma criança quando ela própria nos diz:

“Desafio-te a me dizeres onde guardaste as palavras todas. Estão nesse baú de memórias que me descreveste num fim de tarde, quando me dizias que eram palavras, só palavras vazias de sentido?

Desafio-te neste instante em que se quebram todas e se fazem em pedaços neste chão.
Sabes de que é feito o seu corpo? De cristais e mais cristais coloridos onde se escondem os olhos todos.
Desafio-te a mas contares como contavas as pedrinhas coloridas do rio, na concha da tua mão. Era um rio livre e sereno esse que te enchia os olhos de luzes e cores. Lembras?”

Dolores Marques com um beijo de parabéns à São Gonçalves e Edite Melo.


Dor do silêncio


Que silêncio estranho habita em mim
Emerge ali um liquido brilho
Um ponto que une outro ponto
Tecendo um murmúrio sóbrio
Mas serôdio que s'embebeda
Da última taça de vinho

Advento que se proclama e até reclama
O meu olhar atento ao novo arco íris
Sentado agora em frente a mim
Enquanto me arrasto até à minha janela
Para ver o retorno das marés

(Reinvento as estrelas ao cair da noite)

As montanhas já rasgaram os céus
Derrubaram-se já todas as pontes
Mas esta multiplicidade de cores
São pingentes disfarçados de pudor
Proliferam nos meus olhos baços
Por quanto é esta espera
Pelo fim de tudo e de mim


(2008)

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Ad Eternum

O que pensarias
Se me visses 
Ir embora
Sem um toque
Sem um gesto
Sem um aceno
Com a mão direita
Para logo depois
A da esquerda
Te tocar ao de leve
Os lábios 
Ainda quentes
Dos beijos 
Que demos
E dos soluços 
Que engolimos
Um do outro?

Diz-me porque
Mastigas o ar
Que respiro
E porque te deixas
Ao abandono
No mesmo chão
Onde apoio os pés
E te denuncias
No mesmo céu
Onde descanso
O corpo?

Disse-te tantas vezes
Que não existe 
Qualquer ponto
Em qualquer espaço
Que não esteja ocupado
Com um sentimento 
Que ainda não se entregou
Aos ventos do inverno
E nem às brisas
De uma primavera
Que agora chegou


quarta-feira, 22 de maio de 2013

Porque choras?




Porque choras
Se o choro 
E um momento doce 
Nas lágrimas 
Que lavam a pele
Dos mendigos?

Esse lamento que calam
E com que lavam a alma
É simplesmente 
Um rio que dorme
Até que a corrente
De lágrimas
Os acorde em soluços

Mas tu…
Tu que choras!
Porque choras
Se o choro é a tristeza
A desafiar a alegria
E esta por sua vez
É euforia
Em demasia?

Esse olhar teu
Que se quer no meu
É só um destino vadio
A consequência
De um choro
Que se perdeu
E se esqueceu
De todos os rostos marcados
Pelas correntes do teu rio

Sabes bem porque nada
Te doeu
Quando choravas
E ouvias o último grito
A encher o céu

 Eventos -2013

terça-feira, 21 de maio de 2013

Rezas





Pelo menos, ou pelo mais, pensando, serei uma peça a resvalar no tabuleiro gasto, onde os pensamentos se ajoelham para rezarem o terço. 

…há rezas mais que descorçoadas, quando se vêem reflectidas no brilho das contas negras de um rosário.

Dolores Marques; Dakini – Ilusorium 2011)

O tempo em que brincava


o tempo
esse tempo
em que brincava
à cabra-cega
e me escondia
na folhagem
de uma árvore
que no silêncio
me escutava
era um tempo
inédito
para mim

ai o tempo
esse tempo
em que brincava
e ninguém
sabia de mim

DM; Dakini, Eventos 2013

terça-feira, 14 de maio de 2013

Onde o cheiro se faz morte




A partitura serenou o espírito
De quem se encontrou com a verdade
Mas a mentira cobriu a verdade
Fez-lhe um filho sem idade

(As mentiras fazem-lhe agora tremer os olhos)

Ouviam-se sons vindos de um lugar secreto
Onde as bocas engoliam todas as notas soltas
Soltavam-se por todas as encostas nuas
Onde já nem as pedras choram
E nem os animais se tocam

A humanidade parece-se
Com uma maçã podre
Dentro de uma cesta de vime
Que faz da cesta de vime
Uma esteira onde o cheiro se faz morte
Como se a morte fosse
Só uma mão aberta
Para a fome

Têm os infelizes as letras todas
Para formarem novos nomes
Têm as pautas abertas e os saxofones prontos
Para soprarem para dentro deles
Como se fossem pães acabados de sair do forno

São todos eles, uma chusma no cangaço
Uma comandita a querer pisar o morro
Que desmiolado se vai definhando
E até se acabar
Chora a dor de não poder sair
E evaporar-se para outro lugar

Cantam às almas lá para os lados
Do sítio, onde morreram todos os lobos
Que, famintos desceram a encosta
A espumarem pela boca

Todos se encolheram até que chegasse
A primavera e lhes desse mais um pouco
De chão para cobrir
Tal como os bois cobrem as vacas
E os carneiros, as ovelhas
E os homens, as mulheres
E os galos, as galinhas

A cacarejar lá vão elas de asas ao vento
Até que a fome as leve como quem leva um coelho
Pelo cangote sem pelo

São os ventos e as brisas
E as flores que nasceram já
Em todas as árvores

São os filhos das partituras
Que pediram para nascer
Nos caminhos
Onde há bosta para pisar
Ou até para rasurar alguma
Obra de arte
Que irá nascer ainda
De verdade

Dolores Marques; Dakini "Eventos"- Maio 13

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Alquimias


Se as vistas
Que (a)visto daqui
Me trouxerem o teu sorriso
Mergulho nesse mar que vi
E sugo-te o mel que coalha
No teu corpo

És já um instante
Que percorro
Sedução e paixão
E a minha boca
Um sopro quente
Alquimia soletrada 
Pelo chão

E lá que m’encontras
Em constante agitação
Apartei-me do meu rio
E sou-te onda presa
Maremoto onde aprumo
A minha solidão

Sou nas brumas da memória
Um corpo só
E na alma…todos num
Sou nos tempos idos
Um vulcão que morreu na tua mão

Vê como sangra ainda
E corre por todos os rios
Ao encontro das vestes idas
Onde o sol reparte
A melhor parte do único verão

Dou-te a minha boca
Sê tu um único trago
E sacia a minha sede
Que morre aos poucos
Num descampado
Onde se juntam as estrelas
E s’arrumam outros sóis
Sem embarcação

(2009)

segunda-feira, 29 de abril de 2013

O dia em que a idade se encolheu


é a poesia
a única vontade
de me deitar
de costas
e olhar
para cima
como se ali
estivesse
a última de todas
as coisas simples

o olhar fecha-se
no exato momento
em que o sol
se esconde
nos meus olhos

calou-se para sempre
o corpo deitado
agora de bruços

a chuva cai
por entre os dedos
escorrega o terço
conta a conta
tal um conta-gotas
como se fosse
o último dia
da vida
do rosário

o dia em que
a idade
se encolheu
na terra ainda
húmida e fresca
para mais uma tela
a pintar


Dolores Marques Abril 2013

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Fim


Secaram as fontes
Morreram as flores
E já nem os lameiros
Têm o verde de outrora
Não há borboletas
Na maciez das pétalas
Que minhas mãos cuidaram
Não há nada que me faça
Acreditar que ainda 
Há vida em nós

Já nem cai a neve
No inverno
Nem se dá o milagre
Do sol 
Já o verão nem é verão
Até a primavera 
Se encolhe no corpo 
Do outono

Só um nada ficou
Resquícios do que 
Nos ocupou
Enquanto ilusão
Que em nós ficou

Não há vida em nós
E sei-o…
Porque também sei
Que os jardins voltaram a florir
E nós não vimos as flores
Nem sentimos os odores
Tal como não enxergámos
Os tons de azul no céu
O rosa acetinado das manhãs
O branco espalmado do lençóis
Onde nossos olhos choraram 

Sabes que o vermelho vivo
Cobre já as encostas 
E há brisas a ensaiar outros bailados
Nas pétalas das novas flores?

Não há vida em nós
E sei-o porque sei também
Que a chuva que caiu
Na última noite
Amoleceu a terra e deixou
Marcas profundas de outra noite
Em que o vento soprou
E nas janelas, até tatuou
Marcas de uma lágrima
Que não viajou 
E se lamentou
Pela perda que em nós ficou

Não há vida em nós
Mas se quiseres, até podemos
Esperar que a próxima estação
Nos dê alguma cor
Ou algo que nos faça
 Calar a dor 
De não termos vida 
Para viver outra vida em nós

Foto: Spencer TunicK

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Era o fim


Era o fim de tudo
- de tudo o que não fosse tulipas brancas
Era quando floresciam e se deixavam enamorar pelo tempo
Era o fim de tudo
- de tudo menos das tulipas brancas

Dizia-se que eram tempos de mudança e eu acreditei
tal como acredito ainda no branco dos teus olhos.
Cabia neles como quem cabe nos intervalos do vento

E tu…
Bem... tu não te fazias ouvir como no tempo em que os jardins floriam

Os lírios roxos já se foram
Era o tempo deles…de se calarem no seu tempo

Era o fim de tudo, de tudo o que não fosse tulipas brancas

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Será que a poesia tem alma?


Jamais a alma sente
O que o corpo desmente
Enquanto pedinte na sua incursão
Pelas avenidas novas
Jamais os rios sussurram
Enquanto as correntes estagnadas
Aguardam pela ressurreição das águas

Serão elas a única esperança
Para quem vive, e só
Para desenhar com palavras
As sombras que escondem um rosto
Ainda inocente

Para crescer basta ousar Ser
Mas para Ser é preciso ousar saber
Que o mundo é mundo
Só porque existe o céu
E ali, nascem e morrem as estrelas
Só porque o sol é o astro rei
E ali, escondem-se todas as pedras preciosas
Só porque existe a vida
E com ela a verdade nua e crua
De quem vive, cresce e morre até ao juízo final

Mas à noite acontece a lua
Para encomendar os sonhos nefastos
Daqueles que andam nus
A reescrever versos
Como pano de fundo
Da noite dos poetas vivos
E também dos poetas mortos

Mas de dia acontecem as primaveras
Para remendar os pesadelos
De quem ainda não vive no presente
Traçando em versos do passado
O berço da sua realidade

(Aguarda ainda para crescer na vontade
De querer ousar Ser de verdade?)

Que futuro incerto brilha agora
Nos seus olhos!
Sim, incerto por ser a sua verdade
Esmagada contra a corrente
Que os prende ao passado
E não os deixa viver o presente

Jamais as palavras serão correntes
Enquanto nos rios morrerem poemas
Criados com cruzes ao peito
E sinais da cruz tortos
Arrematados da direita para a esquerda
Testa com testa
Boca com boca
Ombro com ombro
Salpicados com água benta
Já estagnada nas pias batismais

Jamais será a poesia
A fonte de água cristalina
Enquanto nos banquetes
Se saciam os poetas
De fel, como se fosse o mel

Sabe-se que o mel adoça a boca
E escorre por todas as entranhas
Onde a voz se amacia
Tal como os seixos dos rios

Sabe-se que a órbita de um corpo celeste
Entra em ação quando
No seu corpo palpita o coração

Pobre coração que sente
E não se desmente
Pobre alma que escurece
E não se abastece da maior noite estrelar
Pobre poeta que escreve
E não se subscreve em sentimento

Aquele que se juntou às mais altas esferas
É passado, presente, e futuro
Lá, sim onde se dá o renascimento da poesia

- Será que a poesia tem alma?
Pergunta-me o poema

Jamais será o poeta, o astro rei da poesia
Enquanto não ressuscitar dos mortos
E sair dos escombros onde amontoou
Palavras, e mais palavras
Despidas de sentimento

- Jamais, jamais, jamais…a rima perfeita
Para início de um poema sem rimas
Mas ritmado no centro
Onde nasce o sentimento

Bate agora com a mão no peito
- Amem, amém, amém,
E no centro do seu corpo ouvem-se rumores
Versos que gemem por mais água benta
Gemem, gemem, gemem
Querem sair e rodopiar
Mas o corpo saiu de órbita
E nada o fará voltar
A ser céu
E lua
E estrelas
E até fonte de água cristalina
A correr montanhas
E a saciar os rios de novas correntes

E diz ele que é poesia
E diz ele que é poeta
E diz ele que fala
Quando o que sente o cala
E o leva a sonhar
Com as sombras ainda caladas
E sufocadas no seu olhar

Enquanto crescem as flores
Ele abandona os andores
Enquanto cantam os pássaros
Ele abdica de voar no céu
Enquanto crescem as árvores
Ele despe-se nas margens do rio
Enquanto jorram as fontes
Ele bebe do que julga ser o supremo
Esse incitador que lhe diz
Que é o eleito
Pela seleção da ordem natural
Escolhido para correr mundo

Mas e a poesia? Essa fica enjeitada
Ou mesmo calibrada nuns quantos punhados
De pepitas de ouro
Quando cantada, ou simplesmente
Arreada no solo fértil
Onde o poeta semeou a sua vontade

Jamais será o verso
Estrela cadente no seu cio
Por ser fêmea adultera
E poeta inculta
Nas avenidas novas
E até nas velhas
Onde estancou agora os seus passos
Para ver só, até onde irá
Quando já nada tiver para sossegar
O corpo e elevar a alma

(Dolores Marques – Ônix; Eventos 2013)

terça-feira, 2 de abril de 2013

Histórias sem passado e nem presente


Contei todos os quadrados e ultimei o meu desejo de ser a figura mais carismática de todas. Ajoelhei e orei a todos os santos, menos àquele que me disse um dia que seria só mais uma peça jogada nas masmorras onde todos dormem, enquanto não chega o dia do último sacramento.
Avisei-os a todos, mas... não me quiseram ouvir. Fizeram ouvidos moucos e retrocederam ao sítio onde tinham deixado os olhos. Ficaram assim sem conseguir enxergar as marcas dos seus pés de chumbo e, curvaram-se então todos para a mais bela oração de todos os tempos.
Era chegada a hora de se redimirem. Deitaram-se todos. Colocaram as cabeças, cada uma em sua quadrícula, para ser posta à prova a sua inteligência. Emocionaram-se todos aqueles que não cabiam nos quadrados e foram feitas as contas elevadas ao cubo para satisfazerem a sua vontade de se materializarem ali mesmo.
Da diferença resultou a soma. O equilíbrio forçado foi aceite por todos. Ficaram só histórias sem passado e nem presente. Renasceram para fazerem uma nova história e aí… começa tudo de novo!
Até quando, até quando para os preparativos de uma nova história? Mas agora sim, com princípio, meio e fim, em todas as figuras geométricas.

(Dolores Marques; Dakini - Eventos 2013)

quarta-feira, 20 de março de 2013

Uma era da cor do sol


Eram dourados o céu e a terra
Era um olhar cor de bronze
Nascido numa era da cor do sol

Dos olhos saltavam faíscas
Tais pirilampos a cobrir a noite

Na boca nasciam rios
À semelhança de outras eras
Propícias à nova estação

No corpo germinavam
Novas sementes
De onde nasceriam novas flores

Nas mãos nasciam
Outras brisas ressequidas

Nas pontas dos dedos
Havia ventos ciclónicos
A separar os raios solares

Via-o sempre nos meus sonhos
Esguio o corpo, felinos os gestos
Olhos fixos no mesmo local
Onde me encontrou

Caminhava breve
Soluçava em prantos
Movia-se como se fosse
Nuvens de algodão

E assim se lembrou
Como as noites baixam
Nos meus olhos

E,  sendo livre o meu sonho
É-o na forma abstrata
De um pensamento
Quando tenta dar
Novas formas ao corpo
Nascido e criado no mesmo lugar

É agora a hora de mudar as cores
Que nascem nas quedas de água cristalina

Os olhos tombam
As mãos descaem
O corpo amolece
O olhar sucumbe

O pensamento quebrou-se
Nos momentos em que nada
Lhe pareceu igual à cor do céu

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Quando tento entrar no olhar de uma criança


Quando tento entrar no olhar de uma criança, (penso enquanto criança, ou enquanto ser divino mais consciente), que  a terra é única, mas incapaz de sustentar o nosso peso já morto;  o de gente desconfigurada, o de gente indigente,  o de gente inventariada, o de pagodes a tentar ajustar os modos grossos, corpos e anticorpos gravitando no mesmo espaço, esquecendo a lei da gravidade. Quando a criança me olha, sinto um calafrio na espinha, uma dor tão fina que me tolhe toda. Fico assim meia desmiolada, ao tentar lembrar-me de como era tão bom sentir-me um ser pensante mas elevado ao mais alto grau de sabedoria que gravita no Universo.

- Enquanto não nos soubermos simplesmente pessoas, andaremos todos (homens e mulheres) a tentar satisfazer o prazer dos corpos, esquecendo o prazer da vida que nos oferece manjares divinos.
- Apesar de sermos feitos da mesma massa, não estamos ainda a dar fornadas únicas e apetecíveis a qualquer boca esfomeada.
- Há bocas tão carentes de brisas divinas, que sacam da atmosfera,  bolhas de ar removíveis; mastigam-nas, engolem-nas, e nunca lhe sabem o sabor. 
- São assim uma variável indecifrável, ainda a tentar aconchegar-se nas brisas do sul,  esquecendo o seu norte.
- São assim uma espécie a tentar encontrar todos os quadrantes dos seus corpos, enquanto do norte sopram nortadas tão fortes, capazes de partir todos os gestos que se encontrem à deriva.

Porque não somos simplesmente pessoas independente do género?
Porque não sabem os homens ser homens, e as mulheres ser mulheres, mas gente?
Porque os homens e as mulheres se desmentem, quando tentam  encontrar nos corpos, simplesmente o prazer dos corpos?

Há ainda um caminho que espera pela certeza de que há caminhadas longas, mas que têm pela frente, todas as esperas resguardadas no olhar de uma criança.
Até lá vamos tentando não esquecer de quando fomos crianças e todas as brisas serão aromas nos nossos corpos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Máscaras


Se TODOS os dias
fossem dias de Carnaval
seríamos TODOS mais felizes….

Seríamos assim uma nova espécie de dor
a tentar sara as feridas, 
tal como tentamos curar a vida,
em dias de Carnaval sem máscaras

Ou serão as máscaras que nos cicatrizarão todas as dores que carregamos
 por serem tão promíscuas e obsessoras…?

Teríamos por fim uma nova sanidade mental…

- a dor seria a personagem principal
nós a representação de todos os carnavais 

- enquanto as máscaras ensaiam uma nova representação…

A peça irá começar dentro em breve!

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Muros


Sabia ao que vinha. Daquele lado, o vento assobiava aos meus ouvidos, como se eu fosse a alegria de um dia sim, a sorrir para o céu. Adivinhava-me e sorria-me sempre que eu lhe estendia a mão. Se não fosse pela minha fraca audição, saberia até ao que vinha no exato momento. Para quê tentar saber as coisas antes delas se sucederem como sucedem as rajadas de vento nos meus ouvidos? 

Bem gostaria de me permitir ser em todos os dias como o vento a querer saltar os muros que ladeiam a minha casa. Estão agora cobertos de musgo. Arredei todos os tijolos de vidro, para que não se sentisse nenhuma silhueta na parte de fora. Cobri-os com tinta plástica da cor do alcatrão e até colei neles recortes de jornais diários, onde se podiam ler as notícias todas que nos fazem cair em nós logo pela manha. À noite já não é a mesma coisa. A tinta escorre, os recortes ficam todos torcidos, e ainda se podem ver transparências a quererem sair de um espaço fechado.

Hoje à noite ligarei  a televisão no canal Panda. Aprendi com os meus netos. Nada melhor do que passar um tempinho antes do jantar a ver desenhos animados. Animam, animam e descontraem os músculos da cara. Não fico com os olhos tortos, se é que me faço entender. Se não entenderem, é porque não têm o canal Panda e vêem a casa dos segredos, ou a Gabriela. Não! A Gabriela já terminou! Dessa até gostava. Não tenho mais nada que me faça rir à noite. Gostava mesmo daquele ar descabido de alguns mestres das artes antigas a tentarem usar o que por si só já está mais que usado. Aquela frase deixava-me de pernas para o ar de tanto rir. “Deite-se que vou-lhe usar”.

Bem, mas agora pensando bem, penso que terei que pintar os muros de tijolos de vidro de outra cor. Vou usar cores berrantes para se poderem ver de cima. Assim quando o vento se quiser fazer ouvir nos meus ouvidos e estiver para chegar poderá lançar-se de para-quedas . Fica logo em casa. Para alguma coisa terá que servir este meu esforço em ter cores que saiam fora do âmbito normal dos usos e costumes de um povo a construir muros e outras coisas. 


(DM, através de Dakini)

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

ad eternum (dueto)



Cândido rosto, talvez
Adormecido no convés 

Cruza o rio em barcas novas
Sem remos, nem bússolas
Sem sóis e nem luas cheias
Que se enleiem por todas as correntes
Do límpido e transparente lugar
Onde os olhares se escondem

Sublime é a beleza 
Nos impuros traços
Que marcam a distância
Entre dois espaços
O meu e o dele

É em fúria, um abandono
Fardo pesado na branda folhagem 
Que dispersa, se afunda
Transcendendo as novas levadas cristalinas
Fruto dos últimos sacramentos
Em deleite, para o Ocaso

Mente descrente e abundante
Em pensamentos oriundos de outrora 
Como se fosse agora
A única demente
Mas crente 
Na figura carismática
Que vive por entre as auroras boreais
De todos os tempos

É efémera
Mas fêmea na sua doçura
Excomungada aos domingos 
Nas páginas de um missal antigo 

É silêncio gelado
A ferir a face primeira de um rosto
Que se veste de olhares fundos 
Na fundura do rio

Diz-me de um desejo eterno
De contar um conto
Que conte às histórias todas
Que já me contaram por aqui
A Ode - ad eternum

Diz-me que será a feição 
De todas as sombras da noite 
E em espírito perdurará
Será alma errante
Pelos poros todos da minha pele
Mas que nunca será marca
No céu, sem mim

Dolores Marques / Mary Dumond

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Mar




Um mar de estrelas cadentes 
Sem ondulações adversas 
Para que o meu 
Ondular presente 
Sinta a solicitação das águas 
A quererem atingir o cais 
Sem nada a levar 
E nada a trazer

DM - Ônix 2011- Esfinges

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

As Ruas




Se não vens 
Procurar-me
Na minha rua
Irei ver-te 
Passar na tua

Quero muito saber
Como são agora
Os teus passos
Quando andas
Sozinho por todas
As ruas que já
Nos conhecem

Quero muito 
Saber de ti
E se a tua vida
Ainda está igual
Àquela que conheci
Quando os dois
Caminhávamos
E sentíamos
Que só juntos
Saberíamos
Onde e como 
Iriam terminar
Os nossos passos
Quando já não 
Existissem mais ruas