segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Sobre Simbioses Montemuranas, o Livro

Sobre o teu livro, que acabei de ler, e como prometido, umas breves notas:

Entrei na leitura sem ideias pré-concebidas, excepto a noção de que gosto sempre de te ler.
Ainda assim, o registo do livro surpreendeu-me.
É sempre difícil de catalogar um texto (pois todos os padrões são imperfeitos), mas talvez dissesse que é um registo histórico (simultaneamente biográfico - tu, tua família e suas inserções no local – e documental – a terra, a cultura, as “estórias”).
Mesmo sabendo das tuas diversas incursões escritas anteriores (e de seus diversos registos - poesia, reflexões, etc), não estava á espera do que fui encontrar (culpa minha) e, por isso, num primeiro momento estranhei o registo.
Depois, leitura adentro, tudo começou a fazer sentido, em especial quando integrado este livro com o “Uivam os Lobos” que é talvez – um pouco – a versão poética deste teu livro.
Talvez escrevê-lo tinha sido uma necessidade (tua).
Como livro histórico e documental está interessante e conseguido.
Descreves e exploras a cultura e hábitos de uma determinada região, aqui e ali romanceando (como é o caso da história do “João Fernandes” que atravessa todo o livro), aqui e ali com um registo muito íntimo e biográfico (tuas impressões e sensações, que não resistes a “poemar” – e ainda bem).
Nota-se um evidente e meritório esforço de investigação e documentação da tua parte (percebe-se que recolheste testemunhos e revisitaste locais).
Nota-se também a tua especial sensibilidade, quer em alguns textos específicos, quer no tom do
minante (sensibilidade que sempre expressas, de forma particular, na tua poesia).
Tive pena que não explorasses mais a perspectiva da Avó que aguarda o regresso do marido emigrado há muito tempo (seus medos, esperanças e expectativas). Acho que dava, por si só, um belo conto.
Presumo que a estruturação da “narrativa” não tenha sido fácil dada a pluralidade de aspectos que, se percebe, quiseste integrar (a escolha das “estações do ano”, como forma de divisão do texto, foi uma boa solução).
Ainda assim, às vezes, como leitor, senti que me perdia um pouco nessa estruturação (também não sei quanto tempo demoraste a compor o texto - suponho largos meses), mas compreendo que a emoção e vertigem das múltiplas ideias que quiseste incorporar fosse uma limitação.
A revisão e edição gráfica do texto também não me pareceu absolutamente perfeita (problema recorrente destas “editoras”, que nunca ajudam).
Mas, em geral, o texto lê-se bem e de forma agradável.

Em conclusão, estás de parabéns por mais esta tua incursão, tens uma escrita que é sempre cativante.
Tenho a certeza, para quem vive na região, o livro é muito especial.
E que, também para ti, este livro é marcante e essencial, pois é um texto que se sente muito visceral, autêntico e íntimo.
Eu gostei de ler, gosto sempre de encontrar tua escrita.

Filipe Campos Melo

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Holocausto

Imagino o mar como um potencial destino dos deuses
Imagino sim, um mar prostrado a seus pés
Imagino como será essa força dominadora
Imagino-me somente onda sem ter onde rebentar

Respiro ainda, sim!
Aspiro um ar denso, poluído que se entranha
nas entranhas todas do meu corpo

Sou onda sem ter o que abraçar
Sou maré sem ter onde se entregar
Sou simplesmente um movimento aberto a todos
os que descem do farol mais antigo

Sim, a torre mestra que suporta um céu maior
Sim esse céu que foi terra e mar 
Sim, esse céu que foi sol e lua
Sim, esse céu que foi o holocausto da humanidade
e a fez calar

Respiro ainda, sim!
Aspiro um ar salgado
furibundo por não saber onde se afundar

A extrema-unção dos vagabundos
que me namora nos dias santos
e me desflora nas noites errantes

Caminho só agora
e sou mar
e onda
e sol
e lua
e terra
sem poiso certo
suspensa 
na atmosfera densa

A extrema-unção dos vagabundos
é chama acesa que incendeia os corpos lá fora

Lá, onde não há chão para descansar
Lá onde a vida cessa sem cessar
Lá onde os caminhos se cruzam e presumíveis bocas se fecham sem se beijar
Lá, há todo um corrimão de letras prontas para me afrontar
Lá, onde os monstros choram e as lágrimas correm para o mar

Dolores Marques "2012

Eu Soletro e Tu Escreves:


Seria um verso só no teu caminho
Se quisesses ser tu, um só poema
Mas pelos tempos que já passaram
Te digo
Que por enquanto
Sou só pintura abstracta
Matizada nas brumas desta cidade que dorme

Vejo as luzes que se fundem com a corrente do rio
E já nada é como era antes 
Sofria por pensar que se tinham afogado
Nas correntes, a despertarem 
Para a noite reflectida nos telhados vazios
E fumarentos das velhas casas

Sempre que lhes defino novos traços
Traço-lhe com cores baças
Os raios esguios
As pontas quebradas
As arestas já esbranquiçadas

Mas ela…
A minha cidade, dorme ainda
Nos meus braços de menina
Esqueceu-se de crescer
E sonha que tu serás
A outra margem estilizada

Mas se quiseres ainda ser poema
Eu soletro e tu escreves:
(A) de além-mar
(M) de maré
(O) de olvidar
(-) outro traço a tracejar o mar?, Dizes tu
(T) de tudo
(E) de esperança

E se ainda me quiseres amar, escreve:
Quero-te nas marés crescentes
De Além-mar
E não esqueças que para olvidar
Os meus sonhos
Serão precisos vários traços
E acerca de tudo o que viste e ouviste
Esquece
É Agora o momento!

DM 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Poema de Amor




Escrever um poema de amor
É ter nas pontas dos dedos a fidalguia 
De todas as flores a desabrochar
Sem mesmo atender 
Ao chamado dos sons primaveris

É verão
Mas  não sinto nas mãos
A chama que me leva a escrever
Um só poema
Uma só palavra 
Que te diga como se ama
Sem saber escrever um poema de amor

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Caminho entre as pontes

O final de um dia a entrar pela noite dentro.
O trajecto de um sol tímido, face à palidez do rio, sossegado
Um espaço em branco, na continuidade do tempo
A soma dos passos, no impasse da longitude do espaço
E depois a neblina…somente esse manto a determinar o caminho entre as pontes


ÔNIX/DM

Sorrisos

Nunca vi alguém com esta capacidade de se multiplicar e continuar com a mesma serenidade,como se não houvesse lugar a qualquer tipo de esforço.
O rosto expressando a delicadeza de um verso que por vezes também é o inverso quando percorre todos os pontos que o definem.
........................
Falta-me saber tanta coisa sobre alguns sorrisos que chegam sem serem chamados.
ÔNIX

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O Além





Nem sempre se mede a distância, contando os passos até à porta fechada
O além não é perto nem longe. É somente o tempo de partida e de chegada com a porta sempre aberta.

ÔNIX