segunda-feira, 10 de abril de 2017

Taça

Enquanto não chegas, sou um espaço incólume na taça vazia,

Todo o seu corpo cheio me basta.
Todo o céu que traz me sacia.
Todo esse rio de água límpida me purifica.
Todo o seu pranto é como se derramasse sobre mim, todas as lágrimas do mundo.

Sou talvez um corpo em chamas por dentro da taça.
Sou, porventura um sujeito, sem corpo...
Um corpo sem sujeito, na sua trajectória.
Espírito errante na noite que se demora.
Sou um pensamento na geometria ainda fechada.
Um círculo que se abateu sobre a desgraça        .
Um movimento descuidado na praça.

Sou a inversão da lua sobre a cidade.
Sou o seu reflexo a emergir do fundo das águas.
Sou a noite que nunca se afunda num sono.
Sou um sonho, cuja porta ainda se encontra entreaberta.
Sou um brilho opaco de um cristal nocturno.
Mas, sou insaciável, num espaço vazio de uma taça.

Sou um corpo arrefecido, quando nada me enche por dentro.
Sou um pensamento irreflectido, contido num espaço sem espaço.

Se um rio por mim corresse.
Se fosse a ínfima partícula de uma das suas correntes nos meus olhos.
Uma só gota dessa taça e eu seria o mar,
Uma única onda desse mar e eu seria um rio.
Uma só corrente desse rio permitia-me um estado de pureza no espaço vazio da taça.

Uma e outra noite ainda à espera de uma fonte que brote fios de água dum estado ausente.
Nem um fragmento dessa partícula permite que seja.
Esquece quem sou, porque lhe sou?
Abandona-me quando se encontra no meu pensamento?

Porque me toma como se eu fosse a hóstia de todos os tempos?
Lembra-se de todas as formas ausentes, quando em mim pensa!

Porque me sujeita a ser o Todo no seu corpo?
Sequer me sente!
Tão pouco me ouve quando desço sobre si, o fogo!

E agora nem em partes, me vê.
E agora nem em somas, se acrescenta.
E agora nem tudo é mais e nem menos. Simplesmente o vazio.
Agora tudo é a divisão dos tempos
Como se tudo fosse uma invasão.
Como se tudo voltasse a ser como dantes.
Como se tudo fosse uma só lágrima da Taça…e toda ela fosse um Todo.

Porque me sacia com ou sem um corpo cheio.
Porque só uma pequena gota dessa lágrima que se verte na Taça, me basta.
..............

ÔNIX/DM

quinta-feira, 30 de março de 2017

Correntes


correntes novas
resgatadas pela suave candura
de um sorriso...

uma boca quente
apaixonante
em completo desvario
suga todas as pétalas
que sobrevoam
um olhar atento

Há um pensar alheio 
Ao curso dos rios