quarta-feira, 24 de maio de 2017

O ponto exacto

Conhecem a lógica de um pensamento. Geometricamente, os traços que os definem, são-no por força dos cálculos errados com que se desenharam os olhos à volta do corpo.
Decoraram todas as ideologias, pelas quais se regem as várias partes designadas por ordenações da mente, mas não sabem exatamente do ponto onde plantaram a única semente, que os faz igualarem-se na dor e no Amor. 

Dolores Marques

Existir...ou....

Não existe maior solidão, do que suportar o peso da solidão do outro, quando sem pensar, não sente, e se deixa abater sobre um sentimento de ódio, vingança e revolta, cujos actos contracenam num cenário ilusório, onde se encontra a sua própria inexistência.
A verdadeira arte do pensar está em saber que se existe ainda que o pensamento seja uma fraude.

Dolores Marques

Tempo de memórias

Nada do que me resta me resta.
No final do caminho serão todos os momentos isentos de quaisquer semelhanças com o que fui. Tampouco saberei se os ganhos e perdas nesta vida me prendem de algum modo a algum momento ainda por viver.
No futuro estão as condições impostas por um passado, que eu nunca soube se o era, ou se porventura me limitava a caminhar por ali, sem querer saber o que se passava dentro do tempo.
E que tempo de memórias se arrastam ainda com os meus passos…que tempo este meu, de nem querer saber onde me escondi, quando o tempo sabotou todo este meu crer em tudo o que nunca vi, mas senti.

Dolores Marques

Sentidos

Nunca foi um prazer ler um livro meu.
Nunca o foi porque também nunca foi um sonho meu, escrever sobre os diversos sentidos, para que fossem lidos pelos despertos sentidos.
Por isso não escrevo o “belo”, ainda que digite as palavras que desenham as cores do Amor.
Por isso não escrevo o que quero! Escrevo o que terá que fazer algum sentido no mundo supostamente de cor rosa, para que se lembrem dos espinhos ali consentidos.
Por isso escrevo o que é inacessível ao encanto dos olhos…
Escrevo sim o mundo da discórdia, da ilusão, da razão e da não razão, do inconsciente mundo dos sentimentos vazios, da volúpia escondida entre os dedos
Escrevo os submundos!
Escrevo o que sem sentido, vai fazendo sentido na dimensão onde já todos os sentidos se organizam para a não escrita com as pontas dos dedos, mas com o despertar da consciência, sentida.
Escrevo os mundos desconhecidos, os de antes, e os após as orgias dos sentidos todos!
Os versos magros, os poemas gordos, os dias marcados para a chegada do maior evento onde não serão mais necessárias palavras para definir o verdadeiro sentido da vida editada em qualquer livro de memórias.

Dolores Marques

"Eus"

Os vários “eus” quando alheados de si mesmos cumprem a sentença do verdadeiro EU fragmentado. 
Nas várias encenações, todos comunicam entre si, porém nem todos sobrevivem à catástrofe do “não eu”.
No cenário desfeito, há a decadência em série de uma sequência de imagens desfocadas, mas com o propósito de alcançarem juntos a dimensão do Ser Uno. 
Os vários “eus” gozam então a plenitude do "não ser", quando finalmente São.

Dolores Marques

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Imagens


Quando se está numa digestão antiga, tudo se dissipa numa sequência imprópria de imagens com vultos sobrepostos.
A melhor digestão é com o estômago vazio, a mente limpa e o coração em batimentos regulares.
O tempo a romper os abismos da loucura!!!
Loucos são todos os segundos que não encontram as horas certas para uma loucura desenfreada pelo círculo fechado de um relógio.
A loucura vibra no coração e não em mentes carregadas de flagelos.
Perfilar tudo!
Não deixar que a luz se intrometa em lugares fora de tempo, para não se ficar às escuras.
Iniciar o voo livre nas asas de uma borboleta, antes que a teoria do caos se abata sobre ela.


ONIX/DM

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Era um ritual antigo!


Era um ritual antigo!

Um ritual que me fazia acomodar o corpo
sempre que a Alma se demorava 
no tempo da Primavera

E a Primavera era sempre Primavera
eu é que não o sabia 
quando o Inverno descia 
aos sobressaltos 
arrastando um Outono 
do dourado tempo dos fenos

Era um Ritual de todos os tempos!
Um Ritual que cabia inteiro 
nos meus olhos de menina 
a desenharem novas estações
no encorpado sonho das nuvens

E o corpo era sempre um corpo
eu é que não o sabia
porque me confundia com o Ritual 
da última Estrela 
no lugar mais fundo da noite
onde sempre te imaginava

Éramos a dança dos elementos
um ritual de todos os tempos

Dolores Marques

Tudo é poesia

Quando na lura
se escondem os sentimentos
tudo é sentido no canto escuro
dos olhos

Agora que chegaram todos
lá do fundo
e os mundos arrumados
na viagem incompleta

Agora que te sinto vida
no corpo de um livro amarelecido
e os mundos inacabados
no tempo do Sol
acabado de me chegar às mãos

Quando os olhos deixam os fundos
tudo é natural e belo
como se tivéssemos acabado de nascer
uns para os outros

Agora que todos
descansarão as palavras
até que surja um novo movimento
a renascer no seu corpo poético
tudo é Poesia nos olhos abertos
ao inacessível mundo 
dos prantos encobertos

Dolores Marques.
Foto na Serra do Montemuro.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Árvore da Vida

Não me coloco em posição alguma que me deixe com a sensação de estar um passo à frente ou um passo atrás. Sou simplesmente Eu, com um caminho a percorrer somente com os meus curtos passos.
A cópia de mim incita-me neste longo e árduo trajecto. Guia-me por certo, por lugares de há muito, esquecidos. 
Estranho este modo inverso à minha pele, mas vou sem medo….vou!

É talvez o sonho do outro lado. 

A margem que sempre me colocou à margem do tempo, não é senão um ponto de encontro dos muitos que não conheço, mas que sei da sua existência quando os sonho e me levam, como se eu deixasse de ser cópia de mim, e passasse a ser originalmente o meu verdadeiro Eu, no sentido mãos lato do tempo, o qual, deixa nesse preciso instante de o ser. 

E eu como sempre, escondo os olhos, invento um novo corpo, e abandono-me ao sonho que sempre me falou em sonhos outros, de um fado do outro lado do mundo. 

Do outro lado, a visão ainda que desfocada sabe de um corpo abandonado, mas nunca ao acaso pela ordem do tempo. 
Do outro lado, o corpo resguarda-se numa dimensão inexistente nos olhos, até porque a terceira visão não precisa da ocupação do tempo, sequer dos espaços. Simplesmente é a origem de tudo o que jaz esquecido no corpo:
- as funções
- as disfunções
- as teorias escritas com a pena de um anjo nos livros
- a leitura às avessas do mesmo livro, onde todos escrevemos em tempos, o acordo entre os vários momentos vividos e os ainda por viver, através do pensamento.
- o prazer por nos sabermos a Amar, mesmo sem conhecermos essa poderosa força do Universo.
- o prazer por nos sabermos a aceitar os prazeres do corpo, sem sabermos em que parte do nosso Eu, tem origem esse mesmo prazer.
- os orgasmos todos em vida e na morte, quando nos sabemos a ascender a mundos.
- os costumes de um certo movimento que se avizinha sempre que dormimos.
- as raízes que nos cingem ao mundo terreno, dentro de uma certa categoria de árvores da vida.
…e tudo o que sabemos existir mas cujo medo nos faz esconder-nos até do nosso pensamento, invertido nos espaços e no tempo.
 E por isso a dúvida de quem somos, dentro de uma certa liberdade ainda às vésperas do Tudo, neste imenso TODO!

ÔNIX (pseudónimo de Dolores Marques)