sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Abrigando o medo

(Foto Dm)

*
De que vale servir-me desta imensa cobertura
Que m’arrasta o sono
Neste imenso degredo
Submerso num sonho
Reencarnando esta loucura emergente
Este simples pacto com a morte

Assim a esvair-se por dentro
Sempre que o tempo me leva para longe
Deste consagrado leito
Quando me ouço nestes ais onde me deito.

A noite é uma sombra que m’enlaça o corpo
E a alma ronda uma silhueta
Que quer à força ser
Um ser vivente
Sob o maremoto que a engole inteira
E a devolve enlaçada em laços finos
De pura seda marítima

Não fosse ela a continuação de mim
Nas margens de um rio
Que se quer fugitivo das marés fortes
E me trazem sempre o mar
Em tempo de tempestade

Não fosse eu uma força
A caminhar no escuro
A ver com todos os olhos da noite
Um tornado quente nos braços
De quem tem medo
E não sabe ser mar
Nem rio
Nem sombras
Nem noite
Acabando como gota de orvalho
Espalmada na atmosfera

1 comentário:

Eduarda disse...

Dolores,

por vezes se torna difícil comentar, tal o fruir contido nos teus poemas.

um momento onde me quedei para emergir o sentir.

bj