quarta-feira, 28 de junho de 2023

Uma era da cor do sol



Eram dourados o céu e a terra

era um olhar cor de bronze

nascido numa era da cor do sol


Dos olhos soltavam-se faíscas

tais pirilampos a cobrir a noite


Na boca nasciam rios

à semelhança de outras eras

propícias à nova estação


No corpo germinavam 

as novas sementes

de onde nasceriam as novas flores


Nas mãos nasciam 

outras brisas ressequidas 


Nas pontas dos dedos

havia ventos ciclónicos

a separar os raios solares


Via-o sempre nos meus sonhos

esguio o corpo...felinos os gestos

olhos fixos no mesmo local

onde me encontrou


Caminhava breve

soluçava em prantos

movia-se como se fosse

uma nuvem de algodão


E foi então que se lembrou

de como as noites baixam

aos meus olhos


Sendo livre o meu sonho 

é-o na forma abstracta

dum pensamento 

a dar novas formas ao corpo 

nascido e criado no mesmo lugar


É agora a hora de mudar as cores

que nascem nas quedas de água cristalina


Os olhos tombam 

as mãos descaem

o corpo amolece

o olhar sucumbe


O pensamento quebrou-se

nos momentos em que nada

lhe pareceu igual à cor do céu


ONIX Poemas 2013

Intervalo de tempo


 Nasci num intervalo de tempo

Tempo que passa por mim como se eu fosse um dia de Inverno

Ainda que esse encontro seja marcado por um dia gélido de Dezembro

Ainda que a noite seja um resumo poético à lareira 

Serra, terra minha, mãe de todos os tempos passados à janela

O rio ao fundo

As águas passadas

As correntes de ar, agitadas no telhado

Xistosos os momentos calados


E eu deitada

os olhos no tecto

e as marcas do tempo do fogo nas mãos


ONIX. Dm


Habitantes de um lugar


Dizem que o sonho mora perto de ti

mas eu não sei onde moras

dizem também 

que tudo se move em direção ao sonho

mas que sonho é esse 

e em que lugar da noite se guarda

irrelevante caminho ?


Assombrado por silêncios malfadados

vento forte uma noite

perfil enigmático em cadeia


A monte, não é um lugar seguro


À imagem dos dias, somos

indubitavelmente

esculturas de anjos 

metade, em busca da outra metade


Um poema mentiu-me a vida inteira

Eu julgava ser a sua autora

Ele supunha ser o meu dono

para sempre 

Sempre que eu ousasse ser poesia


Soube sempre ler estes versos  

contrários a tudo o que sabemos 

ser verdadeiro ou falso 


São só uns versos curtos

que o elegem meu 


Mas, meu quê?


Não possuo esse domínio, ainda

Eu ser ele

Ele ser eu

Ou quem pensamos ser no mundo da ilusão


E tu

quem raio pensas que és, neste poema?

Deus?

Os deuses vivem no paraíso

E o paraíso

é muitas vezes o corpo de uma mulher nua 

deitada numa praia deserta 


E nós

habitantes de um lugar 

não podemos saber tudo


Mas que lugar é este?


Dakini,dm

terça-feira, 27 de junho de 2023

Eu era feliz, dizem

 


Quem diz que eu era feliz, 

não sabe nada, 

sobretudo sobre a felicidade 

ser um ser vivo

 pronto para entrar em mim 

a qualquer momento


Tu és a felicidade...

Sinto-o cá dentro, esse caminho longo

Onde tudo é possível, 

quando caminhamos Juntos


 Eu era louca dizem….

Loucos os poucos versos 

que nos definem

não sabem da loucura 

de quem nos lê


Sem poesia sou nada 

Uns parcos sonhos nascidos 

Ainda eu era menina


Nunca soube porque o era

Se pensava, falava, sonhava


Sonhava os meus sonhos

Às vezes os teus, os nossos


Eu era feliz, dizem… 


Dakini, pseudônimo 

Universo tântrico



A somar ao silêncio 

mais silêncio

mais ausência

mais dor

mais os violentos ventos do norte 

quando o meu corpo é bramido silencioso, 

templo de um único sol


(Quando o sol se põe todo o silêncio é rei)


Trajada a noite para uma longa viagem, 

tudo pode ser invertido num espelho, 

ocasionalmente ...

escrevendo um poema com a luz que desenha 

uma sombra deitada,


(Só para saber dela e de mim)


Eu sou do tamanho dela

Ela não tem tamanho 

Talvez por não ter nenhum tamanho

 não sabe como ficar colada a mim… 

despida


Num universo feminino 

o homem é dono de uma sombra decepada.


(Sobe por ela acima, esse modo único de prazer )


O dele é um caixa aberta para o mundo artificial

Os orgasmos ponderados

Soberbos os metódicos tempos 

Os gritos mudos

Os fluidos na demanda do prazer, 


(Indomáveis em gênero oposto ao real


Ao real lobo faminto   

Tudo lhe é 

Tudo lhe é concedido

Tudo lhe é farto, devido

E ele tudo concebe nos agrestes picos montanhosos


O longo disfarce da lua a debruçar-se sobre o meu corpo 

pernoita em mim, devagar

É dono da minha solidão, nunca de mim será, 

enquanto sóbrio


Terá que albergar o céu e a terra no dia a dia 

dos seus passos

Terá que erguer a taça vazia ao sol

até que do céu cheguem baptismos sucessivos

que o meu nome não deixará de ser rio

ou mar 

ou vento a soprar no vale 

onde descansam das intempéries,

os guerreiros 


A noite passada uivaram os lobos

Eram uivos cegos, famintos de desejo

Esta noite nasceu um novo cântico nocturno 

com a força do másculo 

deitado ainda sobre uma das sombras


Ontem dormiu ela, sossegada, não acordou

Hoje não sei se acordo eu, 

desassossego-me no sono

dono deste vai e vem sombreado


O Universo tântrico é um denominador comum


Dakini, “Onde Está o Homem?”

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Verbo


 Verbo


Nos bastidores de um cenário 

onde o poema contracena 

com o Poeta

os versos são meros viajantes 

em concordância com o Verbo


O corrupio é uma variável

a contracenar com os ecos 

de um silêncio mordaz

que faz conjugar os verbos todos

enquanto o verdadeiro Verbo 

se limita a ser só Poema


Dakini, pseudônimo 

Ilusão


 Ilusão


São sorrisos que inspiram 

sentimentos cristalinos

burburinho de silêncios 

na dança das águas

seguimento de um temporal

a ser domado por causa única

e singular 


(Há quietude nos teus lábios

colados nos meus)


Existo na segunda metade do tempo

imperfeita leitura nas páginas

por ti redigidas

a paixão era a de um livro

e o amor esse intocável sermão 

no altar da noite 


Mestre de silêncios

escritos antigos na solidão 

em queda livre me lanço 

sobre todos os ventos


Serva de um sentir livre

no tempo preso às marés

esse senhor fado, corpo esbelto

nascido de um furacão


(Há sorrisos que inspiram a ser eu

única até na morte lenta de uma ilusão


Onix.dm