segunda-feira, 26 de junho de 2023

Ao centro


 Ao centro 

Nada mais do que um verso

Define o vôo de volta a casa

Onde o silêncio se propaga 

Até ao amanhecer 

Tal mendigo sem tempo certo


O prazer existe ao fundo

Onde não existe tempo

Todo o silêncio é humano

Menos o tempo de cada um

Trancados num aquário


Os olhos vidrados 

Vertem lágrimas douradas

Lampejos fúnebres

Por tão pouco tempo de existência

Nesse fundo alegórico

Onde o prazer é uma metáfora

Alheada do poema 

Ao centro 


Onix.dm

domingo, 25 de junho de 2023

Só quero não ser Eu


 Só quero não ser Eu


Porque me doem ainda os sonhos distantes...

Porque não sei como sonhar longe, assim tão longe, sem sobrevoar o Vale.

Porque sou como um veio de sangue que corre louco sem um pedaço de ti.

Porque há suores frios no meu corpo, como são os dias em mim.

Porque já não sou a mesma corrente inovadora, à procura de alguma porta aberta.

Porque sou eu toda, fechada em mim, com um pouquinho de nós.

Porque me doem os olhos nas noites em que não chove.

Porque espero pela melhor hora da coragem a encher um copo vazio

Porque sinto que morro em cada instante nosso, que vive em mim.

Porque já não sofro quando viajo na noite sem um sonho por perto.

Porque…

Porque tenho dias que me dói a loucura, outros a lucidez, e outros, a exclusão de mim.

Porque não sei ainda para onde vou.

Porque a cada passo em frente, mais caminhos se abrem.

Porque, agora só quero procurar um espaço da noite ainda em sobressalto…


Só quero não ser Eu.


Marta do Vale, pseudônimo

Ontem escrevi-te um poema


 Se o pensamento voasse


Ontem escrevi-te um poema

Só um que te pudesse falar baixinho

Da Alma ainda a desabrochar nesse jardim

Construído à beira-mar, por nós dois


Esbocei num papel rasgado

O resumo do poema 

Para que te soasse inteiro

Tal como tu és o meu primeiro


Pensei nas melhores imagens

Imaginando-te simplesmente, Amor

Ainda que numa escala invertida 

Mas, consentida pela simbologia 

De uma grafia antiga


Projectei sobre esse momento, um nome

Que me lembra ainda 

Uma mensagem singela em aramaico


Se o pensamento voasse

Resumido numa só palavra

Que nos libertasse deste caminho

Que percorremos, solitários


Marta do Vale (dm)

In Yang


 In Yang


- Não, não sou poeta. Escrevo poemas, dizes?

- Nao sei se assim os lerão.

- Lê-me um poema meu e dir-te-ei se sou poeta, ou se porventura, serás tu o poema.


- Em que ficamos? Preferes ser poeta ou poema? 

- Vou beber água à fonte que resiste ainda na casa de cima.

- Eu tenho fome. Sinto um desejo a crescer nas mãos. Acho que prefiro colher frutos do pomar. Das romãs, sugo o primeiro elixir do dia, como se fosse o último da vida desse arbusto florido.


- Os meus pés dão sinais de um cansaço estranho, como se o meu corpo os largasse, condenando-os aos subúrbios de um céu a preto e branco. 

- Enquanto isso, o meu corpo assume-se esquartejado, resistindo somente a alma, como se fosse a casa de Deus.


- O meu coração dá sinais de euforia, enquanto tombadas, as romãs se achegam perto da boca.


- Procuro rimas para um poema sem voz.


- Nada me importa, desde que sejam libertas todas as aspas que alguns poetas têm ainda presas, na garganta.


- Não, não sou poeta, escrevo poemas, dizes? 


Epifania (pseudónimo)

Sombra

 

Sombra


Não me queiras mal

que eu também não


Não te sinto perto 

nem longe  

transferência incolor de néons

cintilante desvio de vidas passadas 


Sombra...sombra...sempre tu 

equivoco rastejante  

fria

madrugada além do dia

não me digas nada hoje

talvez amanhã sejas poema

um corpo

a alma que sorri


Não sei como avançar sem te levar

sombra inquieta

melódica

metódica

amante da noite

rastro de sangue 

quebranto de um santo

ainda vivo


Herege…herege…herege

é este pecado meu


Não me queiras mal 

que eu também não 

o vento, agora companheiro

varre as sombras dos caminhos…


Guia incompleto

replecto de mistérios

não me sei noite 

nesse cruzamento de dados...

não me sei dia

nesse limiar da tristeza


No limite serei eternamente nós 

sabias disto

ser um dos maiores… nós?


Não….

decerto não

eu e aquela sensação 

clareza de um rio veloz 

corrente insidiosa 

toma-me…inerte…

sempre inerte este invólucro da alma


E tu, sombra 

que vives à sombra de mim

pára

não me afrontes 

enquanto durmo


Que sonho


Dakini, pseudônimo

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Mulher


 Despida para a maior parte,

sou a loucura de uma noite fechada

em nós 


Sou a mulher 

que te ama como se fosses o Amor

nascido do meu ventre


Nua nas tuas mãos, serei 

a luz que emanam

esses transeuntes noturnos

a procurar a justa causa

disto tudo


Depois nada és

quando dentro de mim

souberes que somos nós

um e outro 

na procura da verdade

....

Marta do Vale, pseudônimo de Dolores Marques