quarta-feira, 12 de março de 2014

Eco feroz

Tentei até sair
para te descobrir
em alguma
das tuas ruas

saberei distinguir
lá no fundo
um mundo
onde ainda existas?

soletrei o teu nome
e só o som da minha voz
foi eco feroz

DM(Dakini)

terça-feira, 11 de março de 2014

Verso e reverso



Havia de tudo um pouco no seu pranto
Sem dias certos para sorrir ao mundo
Foi tecendo em horas mortas, o espanto
Que deu voz a um sonho profundo

Desse sonho nasceu um novo olhar
Desfilando no verso e no seu reverso 
Até chegar ao templo, e se fechar
No altar-mor do seu novo Universo

Ainda que viva em todos os rios
Ainda que se afunde em outros mares
Sentirá o mesmo que muitos gentios

Que por sorte encontre o seu Norte
E no seu inverso se possa aventurar
Nos limites do seu consorte


Dolores Marques

terça-feira, 4 de março de 2014

Estreitando Laços

É no silêncio que ouço o meu próprio canto
Mas é aqui neste palmo de terra
Onde repouso a minha voz
Que te ouço
Que te espero
Que nos remedeio
Estreitando laços
Enlaçando-me nos nossos próprios laços

Mereço-me assim
Nesta sujeição perfeita
Sempre que me sujeito a ti
Numa viagem interminável por caminhos outros
Que nos trazem sempre a paz que merecemos
Silencio-me e vou indo na voz de um silêncio inquieto
Mas acabado num quase início de noite
Onde brilham os sonhos mais distantes

São eles um meio de nos reerguermos
E de nos dizermos das gentes que somos
Das crenças que obtemos
Neste patamar sombrio
Onde as ilusões criam raízes
E soltam gargalhadas matinais
Por sobre a terra onde nascem os sobreiros
E as oliveiras

Quero porque quero
A luz que lhe cobre os ramos
Os da Oliveiras…
Quero porque quero
Os adornos dos ramos gigantes
Os dos sobreiros...
São terminais de uma floresta verde
Onde me endireito e me conserto
Quando faço da cortiça esteira para meu leito
E dos olhos negros das oliveiras
A luz que me guiará…um dia

Há um mundo que desconheço lá fora
E esse é meu sustento
Quando daqui me for embora
Mas por enquanto deixem-me aqui ficar
Preciso ir-me num sono lento
E ficar
A sonhar que me fui num momento

Dolores Marques
(Poema na Antologia da Chiado Editora - Entre o Sono e o Sonho) 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Templo


Talvez a difamação seja só um meio de profanar o templo onde guardo todas as lembranças de menina. Talvez seja só uma memória que ficou algures em outro tempo, quando ainda não sabia se tu virias ao meu encontro.  Recebo-te como quem recebe um credo, atendendo a que não sei como ficar,  neste patamar elevado ao surrealismo e idealizado por um olhar triste. Sempre te sinto ir, sem saber se voltas cedo ou tarde, neste dia em que me debruço na janela e vejo as águas paradas no Tejo. São elas que me levam quando descanso os olhos nesse leito sossegado. Lembro os dias em que ficava na noite à espera de ouvir um som, um qualquer som que me dissesse onde te poderia encontrar mas nada me dizia nada. Só um amontoado de vivências soltas, quando em outro rio me deitava e me deixava ficar a ouvir o estalar das pinhas nos pinheiros, até que o sol se fosse. Foi sempre assim este templo; portas abertas para o tudo ou o nada, paredes nuas onde pinto todos os sorrisos, vidraças furadas, estilhaçadas pelo meu olhar novo e dei-xando-me ficar, simplesmente à espera que o sono me levasse para algum lugar. 

Profana esta melodia, que de dia se confunde com os ruídos da tua rua, quando as palavras são só um meio para iniciar a fuga. Essa loucura escondida a paredes meias com o medo de serem encontradas, o desejo de serem profanadas, até à mais pequena nota onde se inventam outras melodias escondidas. Talvez as palavras se diluam. Talvez as crendices se apaguem, e provoquem o desfecho duma história, que faz do templo um lugar para se encontrar o verdadeiro acreditar nas palavras que merecem ser ouvidas, e não profanadas num canto qualquer da tua rua.


Dolores Marques 2010
Foto: DM (zona Oriental de Lisboa)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

À conversa com

- Parece que nos diluímos no espaço, que tudo é ilusão criada por nós, e que nos materializamos aqui por uma única razão - Infernizar a vida uns dos outros. 

- Concordo contigo. Às vezes parece-me ter caído num abismo de incertezas, que tanto faz saber-me aqui, como em qualquer lugar de um mundo, que parece nem existir. Já todos os sorrisos se condensaram. 

- Então, porque teimam em sorrir, quando o molde de que é feito, nem estátua chegou a ser? Sorrir com gosto é ter nos olhos o mundo, na boca um sopro abençoado e no corpo a dança dos tempos áureos. 

- Agora tudo tem fome de tudo, porque a fome já é uma nova marca, no mercado. A fome dos sorrisos forçados com lágrimas embalsamadas já cresceu por toda a parte. 

- É preciso sentir que a cada palavra se solta um novo perfume entre sorrisos e que esses mesmos sorrisos, sejam o mote para um dia, irradiando felicidade. 

- Isso. Sorrir - o acto de conquistar a amabilidade escondida em cada rosto.

DM (epifania & Ainafipe)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Correntes

Correntes forjadas nas catedrais. O lugar apoiado por duas colunas da sociedade capitalista. O lugar implementado pelo Deve e o Haver…
Simplesmente se deve, por se haver por tempo indeterminado, um arauto de inverdades a nascer em cada templo, ainda por explorar pelos justos valores de uma nova sociedade, prestes a romper todas as correntes já enferrujadas. É preciso chegar lá, e dizer-lhes que estão a cair em desuso, tal um parafuso esquecido nas tábuas onde arrastam as vestes já furadas pelas traças.

DM, (Dakini 2014)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Epifanias



Finalmente o advento
Uma nova Era acontecia
No corpo agora flácido
O oposto do seu princípio

Almas em debandada
Quebraram a corrente
Há Epifanias em movimento

Consumiam-se estrelas no seu leito
Enchiam-se colos fechados

Há um ciclo aberto num novo espaço
Cabem nele as primeiras horas do dia
Ainda flutua, mas lentamente se esvai
Eis que perto da alvorada 
Se perpetua, ao acordar num olhar baço

Chegou a ter visões do futuro
Nas erratas imaginárias
Caiu num buraco sem fundo
No tempo, criou um novo espaço

Escancarou a dor
Espraiou-se em ondulações frenéticas
Já se ouviam nas ruas, lamentos chorados
Corriam rios. Secavam as nascentes
Era a nova era sem lei

Finalmente o inverso
Quando no corpo se ouviam gemidos
Do quebranto continuado
Enguiço enjeitado pela nova ordem do mundo
A cruz maior dos moribundos

Calaram-se todas as vozes
Em todos os sensos vivos
Há uma janela fechada

Chovia lá fora. Era uma chuva miudinha
Os ruídos de fundo colaram-se 
Ao trinar duma guitarra
Que chora, ainda pela noite fora


Dolores Marques (ÔNIX)