segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Fogo

(Imagem -André Louro de Almeida)




- Contornando momentos perdidos na mobilidade de um movimento circunspecto a cair em desuso pelos canais dispersos na caixa do mundo, o meu corpo assume-se na vertente organizada pelas mãos de fogo.

- Traços nobres de uma face escondida na penumbra da noite, contrariando a cadência solta de quem sabe entrar por um único canal, e ser uma linguagem assertiva e se tornar gente sem se perder na boca do mundo.

- Assim como quem forma um circulo à volta do fogo que me consome toda. Este lento caminhar sobre a terra, único jeito de ser una nos terrenos áridos da vontade dos povos que me tomam sua.

- Imaginando, serei talvez um grito, que se forma no único ponto onde te escondes. Chegarei lá. Entretanto, fechei os olhos e libertei a mente para um único movimento dos olhos.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Espelhos D'Água


(foto, D.M. - Rio Paiva)


Um saber talhado
Intransigente saber
A decalcar as formas
De um mundo vivo
Onde me espera o amor

Espelhos d'água
Vibrações
Figurações
Nas águas do meu rio
E o meu corpo adormece
Fundeado no imaginário
Dourado

Rosto cansado
Sem cor
Braços caídos
Sem dor
Olhar cabisbaixo
Em jeito de se deitar
Mão em concha
Forma única de receber
Mão aberta
Forma única de se doar

Mas o saber é dolente
Não me quer
Não me toma
Não m’eterniza
No mundo
Um mundo a acabar

sábado, 15 de janeiro de 2011

Fragmento

(foto, D.M. na minha aldeia)
*

Espelhos d’água
No meu rio
A furar o vazio
Cofre forte
Em estado anémico
Sintomático
Sorumbático

Cai o dia
E é a noite a madrugar
Nos meus olhos
E é neblina lá fora
E é tudo cabisbaixo
Em pequenos baixios
Portas escancaradas
E a noite sem céu
Afogou as estrelas
E os dardos
Carimbos nas tuas mãos
Pirilampos na enseada
E na montanha faz breu
Faz breu na montanha

E é noite
E é neblina lá fora
Maresia
Mar revolto
Lugar ao sol
Fragmento de um amor meu
Inerte
Calado
Farto
Sem sorte
Sem Norte
Que o teu tempo me deu

Espelho meu
Meu Assur lilás
Rosto escancarado
Estradas sem nome
E no azul
Hà um amor seu
E é furor
Fulgor
Teor
Imaginado
Configurado
Destratado
E eu sou eu
E tu és tu
Meu senhor
Ancorado
Meu amado
Amado meu

Conselheiro de um mar salgado
E o caos é a ordem
Nas bifurcações
De uma ordem inversa
No forte
Onde impera a mudança
Da ordem natural

E o vigilante farol
Acoplado ao vazio
Onde o nada
É só um ponto minúsculo
Mas pereceu
E eu sou só eu
Em todos os pontos
Onde és meu

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Ser livre

Foto; Parque das Nações)

Há momentos na nossa vida que mais vale enfiarmo-nos debaixo de uma cascata corrente vinda das montanhas. Elas trazem resíduos, partículas de um todo que nos vai desgastando o corpo e polindo o pensamento. Saberemos como se pode ser livre sem se saber dono de muitas partículas que viajam no escuro. São aqueles momentos que nos dizem que para se ser livre no pensamento, teremos que asssimilar todos os momentos que nos mostram que há vida para além deste movimento fechado.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Onde estão todos?


Já só falta um punhado de sol
Nas minhas mãos vazias
Uma brisa no meu olhar cansado
Já só falta um simples latejar das sombras
E uma mó movida pelos teus braços

Onde está a força motriz
Espirais ao vento
Os olhares todos
Os rostos e as bocas cheias?
Onde estão todos aqueles que adormeceram
Sob as leiras de trigo?

Sol posto na eira
Lua deitada no rio
Calafrios no dorso de quem não tem chão

Pão d’ouro
D’ouro fino
Brilho nocturno
Lágrima quente
Pó na estante
Livros ausentes
Poesia morna nas mãos do poeta
Massa estanque
Por levedar
Na minha mão

Onde estão todos ?

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Enamorados

(Foto, D.M. - Porto Covo)



Fui e não voltei
Perdi-me
Nas mil e uma formas ...
Seres com asas
Enamorados
A tentar a sorte
Na varanda onde me esqueço de mim
*
Fui, e não voltei
Enganos meus
Nos olhos teus

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Pedra


(Foto, D.M.; Correntes baixas do Rio Paiva)



Rudes são todos aqueles
Que querem e não se têm
Sabendo-se arlequins nas malhas polidas
Pela aragem de um vento agreste

São sóis
Em espaços bélicos
São luminescências
Em partos disformes
Os traços deixados pelos que riscam
Os grossos modos de se enroscarem no chão

Criteriosos os olhares
Amortecidos no pó do caminho
São tão negros da fome
E de tudo o mais que lhes ofertaram
Nas malgas dos pobres

(Pobreza farta
Mendigos a saciarem-se nas ruas desertas
E eu tão vazia de mim nestes socalcos toscos
Onde me despedi da minha alma )

Habita o cume mais alto
Mas ela não me cita
Nem reclama por mim
Não se prostra a meus pés
Para que lhe beije o manto
Não se reproduz
Nem quer voltar a ser sol no meu caminho
E eu tão veemente solicitada cá em baixo
Que meu corpo se quebrou
E se volveu à terra fria

(Petrificou-se no limbo da minha sapiência
Desmaiou
Ensaiou
Mortificou-se
Ou só se anulou no centro dos meus olhos?)

Pedra é
Pó será
Sulcos no meu corpo
Ressonância a deslizar sem dó
Dormência fatal