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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Alma

(Foto DM; Luminescências)



Não posso sequer imaginar
que por não te poder tocar o corpo
te não possa tocar a alma...

Quero-te mais do que ontem
e mais do que todos os momentos
acontecidos e por acontecer

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Pontas



Feri-me nas pontas dos dedos
Gestos afiados
A dilacerar a carne
Letras escusas
Em traços difusos
Vida corrente
Modorra quente
A desencantar à sorte
Um olhar feliz
Os ensaios finais
De um corpo lascado
Mente e tão-somente
Des(mente)
Que consente
Na finura dura
Calibres no meu corpo mole
Pedra dura
Nos meus pés de barro

Tão firmes as lascas
As pontas de xisto
A possuir-me a carne
A luminária imune

Nos meus traços nus
E os seus dedos crus

domingo, 16 de janeiro de 2011

Espelhos D'Água


(foto, D.M. - Rio Paiva)


Um saber talhado
Intransigente saber
A decalcar as formas
De um mundo vivo
Onde me espera o amor

Espelhos d'água
Vibrações
Figurações
Nas águas do meu rio
E o meu corpo adormece
Fundeado no imaginário
Dourado

Rosto cansado
Sem cor
Braços caídos
Sem dor
Olhar cabisbaixo
Em jeito de se deitar
Mão em concha
Forma única de receber
Mão aberta
Forma única de se doar

Mas o saber é dolente
Não me quer
Não me toma
Não m’eterniza
No mundo
Um mundo a acabar

sábado, 15 de janeiro de 2011

Fragmento

(foto, D.M. na minha aldeia)
*

Espelhos d’água
No meu rio
A furar o vazio
Cofre forte
Em estado anémico
Sintomático
Sorumbático

Cai o dia
E é a noite a madrugar
Nos meus olhos
E é neblina lá fora
E é tudo cabisbaixo
Em pequenos baixios
Portas escancaradas
E a noite sem céu
Afogou as estrelas
E os dardos
Carimbos nas tuas mãos
Pirilampos na enseada
E na montanha faz breu
Faz breu na montanha

E é noite
E é neblina lá fora
Maresia
Mar revolto
Lugar ao sol
Fragmento de um amor meu
Inerte
Calado
Farto
Sem sorte
Sem Norte
Que o teu tempo me deu

Espelho meu
Meu Assur lilás
Rosto escancarado
Estradas sem nome
E no azul
Hà um amor seu
E é furor
Fulgor
Teor
Imaginado
Configurado
Destratado
E eu sou eu
E tu és tu
Meu senhor
Ancorado
Meu amado
Amado meu

Conselheiro de um mar salgado
E o caos é a ordem
Nas bifurcações
De uma ordem inversa
No forte
Onde impera a mudança
Da ordem natural

E o vigilante farol
Acoplado ao vazio
Onde o nada
É só um ponto minúsculo
Mas pereceu
E eu sou só eu
Em todos os pontos
Onde és meu

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O Centro

(foto: D.M.)

Quero o nada
Se esse nada
For somente
A inusitada presença
De um fogo quente
A tomar-me o centro
De um tudo que te dou
E me tiro enquanto nada
Que me sou

Este calafrio na espinha
Este energético centro
Acoplado ao movimento
Que dás aos traços
Que se formam
Nas palmas das minhas mãos

Este calor suado
Na inerte madrugada
Combustão na demanda do prazer
Jeito inato
Nascente de um único ponto
Que me quer toda
Porque sim

Este degrau solto
Acrescento da minha alma em chamas
Corpo que se esfuma
No centro da noite
Que me tome por inteiro
Nas sombras de Deus