domingo, 25 de junho de 2023

Sombra

 

Sombra


Não me queiras mal

que eu também não


Não te sinto perto 

nem longe  

transferência incolor de néons

cintilante desvio de vidas passadas 


Sombra...sombra...sempre tu 

equivoco rastejante  

fria

madrugada além do dia

não me digas nada hoje

talvez amanhã sejas poema

um corpo

a alma que sorri


Não sei como avançar sem te levar

sombra inquieta

melódica

metódica

amante da noite

rastro de sangue 

quebranto de um santo

ainda vivo


Herege…herege…herege

é este pecado meu


Não me queiras mal 

que eu também não 

o vento, agora companheiro

varre as sombras dos caminhos…


Guia incompleto

replecto de mistérios

não me sei noite 

nesse cruzamento de dados...

não me sei dia

nesse limiar da tristeza


No limite serei eternamente nós 

sabias disto

ser um dos maiores… nós?


Não….

decerto não

eu e aquela sensação 

clareza de um rio veloz 

corrente insidiosa 

toma-me…inerte…

sempre inerte este invólucro da alma


E tu, sombra 

que vives à sombra de mim

pára

não me afrontes 

enquanto durmo


Que sonho


Dakini, pseudônimo

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Mulher


 Despida para a maior parte,

sou a loucura de uma noite fechada

em nós 


Sou a mulher 

que te ama como se fosses o Amor

nascido do meu ventre


Nua nas tuas mãos, serei 

a luz que emanam

esses transeuntes noturnos

a procurar a justa causa

disto tudo


Depois nada és

quando dentro de mim

souberes que somos nós

um e outro 

na procura da verdade

....

Marta do Vale, pseudônimo de Dolores Marques 

domingo, 11 de dezembro de 2022

Simplesmente


 Em "Simbioses Montemuranas"


Conheço o vento e a força

dos elementos

como quem se faz ao mar

ao encontro das marés


Descansam mares nos meus olhos

e rios no meu corpo


Seguro nas palmas das mãos

um sopro de serra, como um punhado

de aragem miudinha

e nos pés, o fogo do último astro


Tenho ainda, Terra à vista

para o que der e vier

ou para o que quiser ser em mim


Dolores Marques

Eu

 


sexta-feira, 26 de agosto de 2022

todos me diziam

Todos me diziam que era a hora de ir embora. 
Eram aqueles, cujo medo os induzia ao sono,  um velho cansaço do corpo, as vestes rasgadas, os corpos imundos de um tempo ainda não passado.
Eram também, os que eu não conhecia do mundo castigado pela fome. 
Todos tinham gritos mudos, horrores por dentro e por fora.
E eu continuava a escrever poemas, cujas metáforas já tinham abalado porta afora.
O amor deixou de ser tema
O cenário reconstruído
Actores nus, um deles tocava piano, um outro dançava, e ainda outro suspenso do telhado gritava os mantras de um céu esburacado.
Estava tudo em vésperas de Outono, o mês do doce Setembro
O Homem só me aqueceria em Dezembro.
....
Dakini