quarta-feira, 18 de abril de 2012

Holocausto


Imagino o mar como um potencial destino dos deuses
Imagino sim, um mar prostrado a seus pés
Imagino como será esta força dominadora
E imagino simplesmente que sou onda sem ter onde rebentar

Respiro ainda, sim!
Aspiro um ar denso, poluído que se entranha
Nas entranhas todas do meu corpo

Sou onda sem ter o que abraçar
Sou maré sem ter onde se entregar
Sou simplesmente um movimento aberto a todos
Os que descem do farol mais antigo

Sim, a torre mestra que suporta um céu maior
Sim esse céu que foi mar e terra
Sim, esse céu que foi sol e lua
Sim, esse céu que foi o holocausto da humanidade
E a fez calar

Respiro ainda
Sim, e aspiro um ar salgado
moribundo
e furibundo por não saber onde se afundar

A extrema-unção dos vagabundos
Que na noite serena me namora nos dias santos
E me desflora nas noites errantes

Caminho só agora
e sou mar
e onda
e sol
e lua
e terra
Sem poiso certo
Suspensa na atmosfera densa

A extrema-unção dos vagabundos
É a chama acesa que incendeia os corpos lá fora
Lá, onde não há chão onde descansar
Lá onde a vida cessa sem cessar
Lá onde os caminhos se cruzam e delambidas bocas se fecham sem se beijar
Lá, há todo um corrimão de línguas afiadas prontas para me furar

Lá, onde os monstros choram e as lágrimas correm para o mar

terça-feira, 17 de abril de 2012

Razão



Perder a razão ou simplesmente deixar de a ter ao querer afirmar-se dono da sua própria razão, ou então, tê-la como um dado adquirido em expressões que elevados ao quadrado, se multiplicam e se desmistificam.


- Como se a razão fosse, um dado adquirido

- Como se a razão se propusesse a ser mais do que a soma de vários pensamentos, quando nem o pensamento é uno.


Proponho um brinde à razão:

À razão de ser

À razão de existir

À razão de coabitar no mesmo espaço onde o pensamento é vago, como vagas as ideias que a levam a querer assumir-se dona de tudo e de todos.

Aos que querem ter razão

Aos que não se querem submeter á razão dos outros

Aos que sabem como lidar com o próprio pensamento em ação para se afirmarem donos da sua razão

e

A todos os que sem saberem, caem nas maquiavélicas propostas de um pensamento abstrato, por pensarem que sabem onde encontrar a razão dos indefinidos.


Adianto-me à minha própria razão e digo-lhe só duas coisas:“Deixa-me em paz” ou “vai edificando um novo pensamento, mais de acordo com a minha vontade em não querer ter razão", ou então, ou então, assumir-me-ei por completo na razão - denominador comum de todas as frações de segundo em que a perco por completo.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Andrómeda

(foto: DM)



Quero a face da lua
A descobrir nas noites
Um universo
De fragrâncias soltas
E aguardar pelo último sol
Nascente no meu rosto

Encontras-me sempre
No aroma das flores silvestres
Num traço castigando
Os poros a descoberto
No meu corpo
Enquanto os meus olhos
Envoltos em fios luz
Tão fina mas tao gasta
Dançam no teto liso
De uma casa sem paredes
Nem janelas
Para me aventurar
Nos caminhos
Da nova Andrómeda

quinta-feira, 29 de março de 2012

Sombra

(Foto: Pedro Faria)

Descem à montanha
As cores do Inverno
Sobranceiras melodias
Enchem as levadas
Metálicos os traços
Riscam no ar
A nova silhueta

(Dissolve-se na neve
Que derrete
Enquanto a montanha chora)

Que é da cúpula
Onde adormece?
Que é do resguardo
Onde se esquece?
Que é do remate
Do seu corpo?
Que é de todos
Lá fora?

Já o sol se põe
E ela sem saber
Onde descansar o corpo
Já a noite chega
Rival da sua sombra

Estivais outonos
Que lhe ensinam
A separar as águas
Enquanto na terra
Amadurecem os frutos

Já o dia começa
Estigma do seu saber
A encolher-se
Perante a hecatombe
Dum raio de sol
Partido pela metade

Todo o sonho nasce
A preto e branco
E se faz luz crescente
Nos seus olhos

Sombra inquieta
Adormecida na montanha
Gelo dos seus medos
Inverno dos seus dias
Ressequidos

Tudo é mudança
A acontecer na tela
Onde se esquece

(Sombra
Um eu que termina
Um outro que começa)

segunda-feira, 26 de março de 2012

Tempo de mudança



(Foto: D.M.)



Sei que me olhas

Como quem vê o horizonte

Como quem sabe que para lá

Existe um novo movimento

Em espera


A vida que se quer

Como quem sente

Que cada passo

Será um começo

Na linhagem do tempo


Esse meio tempo

Que nos espera

Nascerá tão breve

E removerá todos

Os exímios traços

Que a linha da vida

Nos concede

Enquanto esperamos

E desesperamos

Pelos tempos de mudança

Mundos

(foto: D.M.)




Estou cada vez mais próximo da fonte, da real vontade de beber sem me embriagar com partículas poluentes, que causam distúrbios moleculares intransponíveis.

Transcendendo a livre circulação das correntes estagnadas, talvez a concentração das águas paradas me faça retroceder e ver à transparência uma nova imagem, cristalizando todas as vontades de me aventurar por novos rios sem saber onde encontrar a nascente que se perde na montanha.


Lá onde o céu começa e a terra acaba para dar novos mundos ao MUNDO.

sábado, 24 de março de 2012

Silhueta

(Foto: D.M. - Rio Tejo)
a sombra
silhueta tosca
a acordar a manhã
e ninguém dá por ela
gélida, assumida
travestida

o rio em silêncio
traz a correria
das águas pardas
à cidade
a rua completa-se
com o desassossego
das gentes que
enchem as vielas
e com elas
a verdade nua
mas crua
da manhã submersa
no nevoeiro

o relógio parou
na noite
estancou a madrugada
num rosto deformado
e simplesmente gente
gente disfarçada
dum pudor citadino
e com ele
um novo peregrino