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terça-feira, 17 de abril de 2012

Razão



Perder a razão ou simplesmente deixar de a ter ao querer afirmar-se dono da sua própria razão, ou então, tê-la como um dado adquirido em expressões que elevados ao quadrado, se multiplicam e se desmistificam.


- Como se a razão fosse, um dado adquirido

- Como se a razão se propusesse a ser mais do que a soma de vários pensamentos, quando nem o pensamento é uno.


Proponho um brinde à razão:

À razão de ser

À razão de existir

À razão de coabitar no mesmo espaço onde o pensamento é vago, como vagas as ideias que a levam a querer assumir-se dona de tudo e de todos.

Aos que querem ter razão

Aos que não se querem submeter á razão dos outros

Aos que sabem como lidar com o próprio pensamento em ação para se afirmarem donos da sua razão

e

A todos os que sem saberem, caem nas maquiavélicas propostas de um pensamento abstrato, por pensarem que sabem onde encontrar a razão dos indefinidos.


Adianto-me à minha própria razão e digo-lhe só duas coisas:“Deixa-me em paz” ou “vai edificando um novo pensamento, mais de acordo com a minha vontade em não querer ter razão", ou então, ou então, assumir-me-ei por completo na razão - denominador comum de todas as frações de segundo em que a perco por completo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Que ser serei eu?

(imagem google)




Acordo de manhã
De cabeça e mente
Sem rumo
Sem definição
Angustiada, pálida
Sem sentido
Sem norte

(Quero, mas não sei
Desejo mas não sinto)

Apelo aos deuses do Olimpo
Misericordiosos
Bondosos
Piedosos
Castos e perfeitos
Não os ouço
Não os sinto
Não os vejo
Não me acodem
Aos meus apelos

(Que ser serei eu?
Porque não me ouvem?)

Crio dúvidas
Dúvidas em mim
De tudo
E de todos
Mas uma certeza tenho
Que nasci e que morrerei!
Não sou indigna demente
Não sou perfeita

Que bom!
Sou um asno
Sem certezas

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ode




vadia é a noite
sem caminho
nem assento

a sapiência
é a medida exacta
que desvanece a fé

a matriz
cruza-se
no infinito
sem crença

angustia-me
não ver
não ouvir
não sentir
não distinguir
o emergir
esventrado
num corpo

assusta-me o silêncio
o pensamento sufoca-me
molesta-me esse
som perturbador

apartada é a alma
que não ouve a ode

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Eu em Ti

Sinto a garganta seca, árida e ofegante

Como quem deseja um copo de água fria

Num deserto abrasador



Reparo na imagem imaculada

Faraónica e predadora do desejo voraz

Sanguinário do teu corpo

Fico fria, impávida e serena



Carne despida, mergulhada em suor incolor

Palpitante a serva do prazer carnal

Lúcida, atenta e pronta para o amor

Mas o coração fraco em batimento irregular



Amor eleva-me ao bradar de um salmo

Navega comigo na cauda de um cometa azul

Vai…leva este ser a viajar

Coloca-me na almofada do teu leito

E ajuda-me a não acordar do sonho

De mulher fonte do mundo sem fim



Energia do prazer invade o meu jardim!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Gaivota

Enternecedora fonte de energia que me envolve. Belo é o ocaso, alaranjado, deslumbrador a entrar pela retina do meu olhar enquanto fumo um cigarro. Ao fundo da praia, junto à rebentação das ondas num baloiçar quase sincronizado, saltitando nos salpicos da maré, uma silhueta rasga o ar que respiro neste fim de tarde, através do seu andar cativante e belo.



Acendo mais um cigarro, fecho os olhos e mergulho no som atabalhoado a irromper por instantes o silêncio onde me isolo. As pestanas estão imobilizadas sob as pálpebras fechadas, o meu meditar é contínuo ao baloiçar do pensamento duvidoso, atormentado e trancado.



Nisto como em forma de braço estendido um raio de luz, rogando…(Agradeço à força motriz, por elevar a minha mente a um novo estado).



- Dás-me um cigarro?



Este som arrepiante liberta num frenesim insaciável todo o meu ego, enquanto o coração bate a um ritmo descompassado, e as ideias se aglutinam numa orgia de sacrilégios carnais.

Em transe

(foto: DM)



Ao centro de uma ara, jaz um corpo sem rumo:
sofrido, esquelético, de tez corroída por canais de um tempo sem fim

Nos seus sonhos voam anjos em espirais, montados nos seus unicórnios alados

O céu é de um tom anil e enternecedor – mortalha que o limpará de todos os males do mundo.

Desperta-o uma dor lancinante
O seu coração trespassado por uma seta com ponta de diamante e resplandecente inundando as cores do arco-íris.

Em transe, ergue-se o seu corpo e ouve-se a sua voz:
- Também sou pó

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O lugar dos eleitos


Existe o lugar dos eleitos, onde te coloco e te elejo o sabedor de todas as minhas formas obscuras e sem sentido, de todo o meu jeito que te arrasa enquanto ser. Todos os outros se sentaram ao meu lado e não me souberam sentir nem me souberam mostrar o seu jeito e que por forças adversas não se conseguiram reerguer, tentando levar-me para um espaço que tento abandonar há muito - o lugar dos mortos.

Existe agora um novo ser, um ser que tem medo até de ser, pelo que sentiu e viveu no lugar dos eleitos. Saberão eles continuar o caminho e dizerem-se mestres de todas as formas que lhe foram dadas e relatadas até ao mais ínfimo pormenor? Saberão eles que o meu lugar foi só um espaço ocupado por todas as formas que se diziam disformes, para que se pudessem desenterrar todos os pontos negros que se foram amontoando até à conclusão de um processo que se diz agora morto mas que ainda não foi liberto para se poder processar de novo?

Existe sim o medo, um calafrio na espinha, um desmembrar de um corpo que se remete de novo ao isolamento, enquanto a alma parte em busca de todos os seres e quer encontrar o teu lado lunar, o espaço onde guardas todas as memórias de uma vida que se quis mostrar, que se quis sentar a teu lado para que lhe desses novas formas. Este será sempre um modo único de ser um ser em movimento, enquanto a lua se movimenta para dar nova luz à noite que me acolhe, enquanto não chegas.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Ser Um ser

Revolta-me ser um ser
Um ser pequeno e medonho
Ser um ser
Náufrago num mar qualquer
Revolta-me ser um ser
Um ser racional, racionalizando tudo
Quando o outro, o irracional resolve irromper
E até me dizer:
- Tu que me trais e me deixas louco e me trazes dor
Deixa-me num lugar qualquer
Onde os corvos também têm voz

Revolta-me rebolar nas palavras todas
Ser só uma voz que fala de todos os seres que rasgam os céus
(As escritas, as inscritas, as malditas, as paridas, as nascidas num pomar qualquer)

Alienados são todos os frutos que saciam a fome de todos os corvo
Essses loucos varridos dos céus, excomungados por um deus menor

Deusa sou eu em todos os quadrantes do meu universo
Este universo que me tem, enquanto Deus não me sabe

Ele não me conhece, porque povoam os céus, todos os corvos
Enquanto não se projectam em queda livre
Para se ajoelharem no chão
Essa fome negra que os conduz ao ventre de um deus qualquer

Deus não sabe que os voos dos corvos semeiam prantos
E deixam caídas no chão, as sementes para o último dos banquetes
Que venha então para o banquete final…
Deusa sou eu!