quinta-feira, 22 de março de 2012

Infinitamente



(Foto: D.M)

Onde queres que vá contigo?
Ao fundo do poço? Não posso! Posso sim amparar-te a queda e assegurar-me que não cairemos os dois
Ignorante!
Não sabes, que não há asas que amparem o voo entre quatro paredes?

A água estagnou lá em baixo!

O resultado da queda será um amontoado de esperanças vãs, sem a consciência de que a água é a tonificação para todos os males, mas não aqueles de que sofres. Esses serão sempre o teu habitat, serão o que quiseres menos a tua consciência em águas profundas a nadar sem braços nem pernas.

Seguro-te mas planamos os dois! Tu serás a ave, e eu, as asas de um condor que voa o último voo até atingir um novo horizonte.

Se de horizontes falo, falo-te sempre de novos. Uns são a sequência de outros. O meu horizonte é o limite até atingir novos limites, infinitamente para lá.


Loucura


vivo em demasia
a loucura
do mundo todo
que há mim

talvez um sonho
ou uma verdade
que se quer
vontade minha
que desconheço

essa ingrata
que se quer
inteira e livre
só para mim
expõe-se assim
sem limites
desenquadrada
do espaço
que me aguarda
sempre

segunda-feira, 19 de março de 2012

Imagem Indefinida




(Tela de Leila Proença)




Se me confundir com a imagem

Que me diz de mim

Não quero saber dos momentos

Que ela me traz

Porque me sei arredada do céu

E cairei na terra amolecida

Pelos meus passos


Saberei dar uma nova forma


Às minhas doidices

Como se me soubesse

Num cubo de vidro

A limar as arestas

Que definem o espaço

Em estado etílico



Furo com os meus olhos

Os pedaços que sobraram

Da queda que dei

E não serei nunca à sua medida

Para tornar a ver a luz do dia



O céu é a cor do meu leito

Quando me deito

Mas entro num sonho

A preto e branco



Noite tão noite

Como a sombra desenhada no chão

Dia tão dia

Como a visão tornada ilusão



Tão branco o branco

Dos meus olhos

Tão negra a sombra caída a meus pés


A imagem indefinida sucumbiu








terça-feira, 6 de março de 2012

Princípios

respira a palavra
de ordem
natural(mente)
o momento intemporal
do homem
e o ritmo
dos dias
o último lamento
dos tempos
que se amofinam
no silêncio
e se perpetuam
nos atos
princípio de todas
as telas
enquadradas nas paredes
de um altar
e o terço em redoma
acabrunhado gira
perante o reflexo
dos dias cinzas
e em cada ímpeto
finda a respiração
do homem
desusado
arrepiado
encurralado
assim se principia

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Gestos



tudo o que faço

para remissão

dos meus pecados

são migalhas

nas mãos dos pobres


remeto-me ao silêncio
mas nem sempre
atinjo o estado de vigília
que me faça entrar
no círculo traçado
pelo tempo

sou talvez uma nova teoria
de mãos estendidas
a saber-se dona
de todos os gestos
que o silêncio engole

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Manifesto

haicai humedecido

na relva

que cresce ainda calada


são timbres da noite

pasmada

nos ramos que cortam o ar


na antemanhã nasce

um novo dia

abre caminho à solidão


há corpos ainda benzidos

dos sonhos

que viveram na noite


carimbo na folha caída

em pedras

rasgadas pelo vento


novas invernias nascem

entre os dedos

esqueléticos das mãos


manifesto duma idade

a cortar os

gestos pela metade


olhos ainda esbugalhados

farrapos

de vidas no chão


o dia amolece os gestos

enrijados

que se banham no rio


a água corre sempre

a jeito

parada na velha cidade

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Nada



Saí hoje para a rua
Desolada
Não tinha nada
Que me levasse
A criar algo
De novo

Talvez um pensamento
Talvez uma só palavra
Que se elevasse
Num só poema
Ímpar
Bem conseguido
Mas nada

Nem mesmo
Os meus sentidos
Se abriram
Para este nada
Que me fez hoje sair para a rua


A mesma rua
Que me conhece
Quando saio sozinha
Ou acompanhada

A mesma rua
Que se expõe ao dia novo
Que principia
E sempre acaba
Nos braços da noite

E eu sem saber como
Começo a saber-me
Mais do que um simples nada

Ando e desando
Por todos os becos escuros
Na tentativa
De encontrar uma nova rua
Sempre a tempo de me fazer
Criar algo

Talvez um sorriso
Talvez um olhar novo
Talvez uma sombra
Talvez o inverso de mim
Talvez o desejo
De me encontrar
Em outras ruas
E conhecê-las
Tal como elas me conhecem a mim
Sempre que saio
Sozinha ou acompanhada