segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Nomes




Sei que não posso
Decorar os nomes todos
E até que ponto
Me posso diferenciar
De todos os que conheço
Já que os rostos são todos iguais
E os olhos gravitam na noite
Como se fossem bolas de berlindes
A querer seduzir o escuro

Sonho

Há ainda um sonho para sonhar


Se esse mesmo sonho admitir


O estado de vigília


E ir rumo à descoberta


De um amor novo


Um novo amor para se velar

Sei de um tempo


Sei de um tempo que nada havia
A não ser o canto as aves
Serenas, planavam no alto do outeiro
E deixavam marcas do futuro
Tal como se propagam os dias
Em que há cegadas nas planícies
E se deixa escoar o tempo
Das breves histórias
Em que nada há para lá do tempo

domingo, 11 de setembro de 2011

Sol da Manhã

Existe um tempo para o nascer do sol. Chegou ainda agora, lento e cauteloso por detrás das nuvens. Chegou tarde este sol, por ser manhã clara nos meus olhos. Uma manhã como tantas outras em que me canso da noite ao lhe tentar mostrar que o sol é um tempo a querer nascer em todos os poros da minha pele.




Existe um tempo para receber o sol, se esse tempo for a medida exacta num ponto onde me encontro, mas os encontros assemelham-se a pontos que se unem num outro ponto equidistante, e nada me faz entender um tempo que antecede outro tempo, que está prestes a chegar. Acomodo o meu pensamento nas nuvens para contrapor o tempo em que irei voltar a ser eu. Esta minha vontade explícita no meu corpo quando te toco e te sinto como se fosses o sol da manhã. Desejo-te sóbrio, sem que os odores da noite te inibam de me tocares. Dissipam-se as nuvens nas águas do Tejo, clareiam-se as vontades todas que tenho ao me tentar anular por completo, quando sinto esta verdade toda a saltar-me dos olhos, como se fossem raios solares a querer atingir o centro da minha verdade. Nua e crua esta minha fome de ser eu em ti e esta sede de me sentir o centro de todas as vontades do mundo. Livre e inconsequente é a luz que enche os meus medos e os transforma em certezas de ter um bem maior a guardar-me os sentidos todos. Essa maioridade que me afronta e me faz recuar ao tempo em que sabia que nada me faria antever a desgraça de ser varrida por um tempo que já não é tempo para mim, mas para todos os embustes que carrego ao longo do tempo.




Esta claridade que antecede a manhã, é a verdade onde coloco a minha vontade de ser um sol a encher poços sem fundo. Este buraco negro onde afundo a minha verdade, dá-me quase sempre a antevisão de um futuro que não sei, mas que existe enquanto verdade na minha vontade de ser eu e tu, ou tu e eu, seres uniformes e continuados para que o futuro seja só um acontecimento presente. Esta claridade que me faz ser um ser autónomo, é-me indiferente porque não sei ser um acto a acabar a manhã. Este querer ser de uma forma exequível, deixa-me presa à minha própria vontade sempre que me perco nesse buraco para esmiuçar todos os pontos perdidos por não saber ser a mentira enquadrada numa verdade disfarçada.


A verdade é uma só, aquela que me traz sempre o sol todas manhãs, e me mostra as vistas de um buraco negro onde guardei toda a minha vontade de me virar do avesso para renascer como todas as manhãs claras que enchem os meus olhos. Estes são os momentos prenhes da verdade que sou ou da mentira que guardo para voltar a ser eu a querer ver o nascer do sol.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Noite vs Dia

(foto D.M.)



Amor
Deixa-me um pouco de ti
Para me sentir tua
Nas próximas horas
Que irão acabar os dias

Estou prestes
A dar novos coloridos
Às nossas noites

Amor
Não sei
Como inventar
Novas palavras
Para dizer
Que te amo

Por isso, Amor

Eu sou a noite

A deslizar
No teu sono
E tu o dia
A saber-me inteira
No teu corpo

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Nu





Nu…! Na penumbra
O Sol tímido
Mas enamorado
Da inocência
Da manhã
Boicotando a luz
Ainda acesa
Do candeeiro

Nu…!Antes
E depois
Da debandada
Dos pássaros
Presos na gaiola
Espreguiçou-se
Acordando em mim

Corpo cintilante
E nu…
Astro completo
Na dispersão
Dos movimentos
Pelos quatro cantos
Dos meus olhos
Existe ainda

Essa fagulha
Términos da noite
*
(Fonte
Da minha fonte infinita)
*
Nu…! Este pingar
Da chuva
Tal o bando de pássaros
A querer tocar
Nas partes mais íntimas
Da aba dum chapéu preto
Onde o sol se põe
E a noite se achega
Para mais
Um nu…!

Borboletas no Aquário de Mário Massari


Mantinha borboletas

No aquário,

O silêncio a balbuciar-lhe...

Regozijos de naufrágios...


Mas, quando as mãos violáceas

Não pressentiram mais as cores

E a visão turva admitiu guelras na fala,

Ao fio partido, Gritou,

Ah gritou!


Suspensos ao eco

Todos os mares não desbravados!

*

(Do recente livro de Mário Massari - "Borboletas no Aquário"