quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Sorrir

Sentir que a cada palavra
se solta um novo perfume entre sorrisos
e que esses mesmos sorrisos
sejam o mote para um dia irradiando felicidade
Sorrir - o acto de conquistar a amabilidade escondida em cada rosto

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Tinha sede


(Acrilico em tela - Dolores Marques)

Bebi todo o líquido que lhe escorria da testa. Era quente e tinha um sabor a mar. Mas a minha boca, estava repleta daquele género de mareantes que se estendem na areia e deixam aquele sabor a iodo que me deixam tonta.

Fiquei mesmo com a cabeça virada ao contrário, quando uma tontura me subiu a alto da cabeça e sem saber como, caí estatelada em cima duma estrela caída. Tinha ainda vestígios, de quando também ela morreu de fome nas águas de um oceano, que nunca soube ser mar salgado.

Tinha sede, muita sede e nada me fez ficar ali naquele sítio, quando ao longe vejo os músculos que brilham por entre a forte ondulação, sendo as pranchas um meio de o fazer atingir o órgão genital das águas. Caiu, caiu e nunca mais se viu.

Tinha sede, tanta sede antes de cá chegar...

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sábado, 2 de outubro de 2010

Andarilho

(imagem google)


Há um mar que me tem
Não sei bem se é um oceano
Não sei bem se é uma maré
Nada sei de mares
E nem de marés
Que me forcem a navegar
Se nem sei como aqui cheguei

Há uma lua presa nos meu cabelos
Não sei bem se é a lua
Não sei bem se é um reflexo meu
Nada me diz como hei-de voltar
A ser mar espelhado no céu

Sou corpo sem alma
Sou vento sem esperança
De te trazer novos sons
Do tempo em que me sentia
Um tal e qual
Andarilho como eu

...tinha fome


(tela de Paula Rego)

Se soubessem como ficaram os meus olhos, de tanto tentarem absorver todas as letras que queriam à força formar palavras para acasalarem mesmo ali à frente do meu nariz.

Fiquei sem nariz!

Olhei em volta e só via gente, gente que se queria alimentar. Mordi-me toda, rui as unhas, depois chupei a carne dos dedos ainda tenra. Fiquei com a boca cheia de vermes, que de tanto tentarem afastar a mistura de compostos orgânicos, perderam-se neles.

Mordi-me toda. Se soubessem como ficou a minha boca depois de tudo o que saiu das pontas dos meus dedos.

Mas eu tinha fome, muita fome antes de chegar.

Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=152662#ixzz11DITUBXJ

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Montanha (de Mário Massari)


O que nos reservam as montanhas?

- a altura das presumidas quedas?
- o desafio do ápice no abraço guarida?

O que caracteriza as montanhas?
- o depósito acumulando eras?
- a erosão progressiva dos dias?

“Os alpinistas acariciam as formas vivas
e as noites cúmplices deslizam
entre abismos suicidas”.

O que nos ensinam as montanhas?

A serenidade na ascensão?
A nobreza na descida?
*
Mário Massari
Engenheiro Agrónomo a viver no Brasil (Sertaozinho)

Livros publicados: Não acordem os pássaros - contos (1994), Achados e guardados - poesias (2002). Beirais - poesias (2007), Arabescos - poesias (2008), Portos, olhares e ausências...- poesias (2009) e Espelhos do Tempo - poesias (2010).



Mário
Gosto de sentir que no cume mais alto está o meu pensamento, ao encontro de todos os outros que partilham comigo a inevitável queda e a indubitável subida.



(acrílico em tela, Dolores Marques)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Para além do Finito (por Haeremai)




Vivo para além das margens
Que em cada dia em mim morrem
Lagos traiçoeiros e desditosos
Em nevoeiros sepulcrais cobertos

Não me digas para voltar aos caminhos espinhosos
Vivo na terra suicida onde os mortos têm alma
Navegantes do tempo em barcas velejadas
De ventos prementes vindos do nada

Àrvores negras de braços esgrimindo
Correm para ti sugando a seiva impura
Dos medos deste inferno fiquei imune

Caminho muito além em horizontes verticais
Barreiras em janelas dimensionais
Onde o ontem e o amanhã se encontram.

By Beijo Azul

Fátima, esta tua vertente mostrando uma mudança de ordem estrutural, à frente de qualquer barreira dimensional, alongando-te o olhar e permitindo que novas janelas se abram, e te mostrem que há mais, muito mais para além do finito, onde nasce um ponto a tocar o infinito de ti.
Gostei deste teu poema e é um prazer publicar aqui no meu espaço
Dolores Marques

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Tão-somente, só





Sinto-me tão só
Como quando nasci
E não te senti
Um corpo
Com um colo aberto

Queria virar-me ao contrário
Voltar ao ventre materno
E dizer-te
Só...a ti:

- Vem-me visitar
E faz do meu caminho
Um sol nascente
A cobrir-me o corpo todo




A saltitar por entre as memórias
Que me dizem de nós
Eu me contradigo
Nos nomes que invento
E nas horas mortas
Fecho os olhos
E choro baixinho

É este silêncio uma dobra
Num lençol dourado
Onde escrevo
O teu nome
Para que no fim
Me nutras a alma
Já que o corpo
Mata a minha fome
Derrubando muros
E a minha sede
A beber os sonhos
Afogando
Momentos meus e teus
*
(Foto D.M)