segunda-feira, 28 de abril de 2014

Espantos

Caminhava lentamente
e sofregamente, engolia o silêncio

Mastigava em seco
as imagens rebuscadas
num dia sóbrio

Era o dia da sagração dos eleitos
mas, pecadores em dia de jejum

Ajoelhava-se perante
o mesmo cálice
erguido em jeito de oração

Mirava-se naquele leito de águas paradas
com  todos os nomes
rebuscados e santificados

Aguardava ainda por novos ventos
esboçados com a pena gasta
e cansada

Chegara por fim o momento
que humildemente
lhe fez frente à tez morena
 
A aridez que descia do alto
toldava-lhe os movimentos inventados
num molde inexpressivo

Humanamente desenraizado
sem saber como sorrir
cerrava os dentes
enquanto mordia ainda
o sabor adocicado de um dia fértil
de espanto

Dolores Marques (Dakini)

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Milagre

O crepúsculo não demorava
a chegar
à terra dos justos

Ergueram-se das catacumbas
com os braços tombados
o corpo desajeitado
o olhar desconfigurado
sobre os sulcos ainda
amaldiçoados

Rezavam a ladainha
de todas as noites
enquanto os sinos
se preparavam
para o último som
que rasgaria a terra
e bradaria aos céus
por um milagre


DM/Dakini

segunda-feira, 31 de março de 2014

Chuva

Hoje vi um poema
que dançava  à chuva
inspirava  ainda
a ordem natural
de todas as coisas terrenas
ao beber a última
gota que descia
de uma chuva miudinha
que quase se perdia
nas pedras da calçada


DM

quinta-feira, 27 de março de 2014

Luz na cruz

Transcendente
o aconchego da manhã
como se o dia quisesse
eternizar-se no meu corpo

Inspira-me num verso nu
suavemente
e lentamente
se faz luz
na cruz

Mas, o arfar do peito
indigente
intransigente
não consente
absorve-lo por inteiro

Ainda e só
carrego às costas
um ser moribundo
que nasceu agora
de um espasmo
contraditório
à luz

DM/Dakini

terça-feira, 25 de março de 2014

Ar

Sofria de claustrofobia
mas tentava
encontrar
um buraco fundo
para aí se multiplicar

Encontrou-se por fim
trancado num balão de ar


DM/Dakini

quarta-feira, 19 de março de 2014

Amanhã...Pai

Amanhã,
quando aqui
não estiveres
esperarei por ti
num tempo
ainda por vir

Amanhã,
serei semente
nos campos
onde outrora
correram rios

Amanhã,
regarei a terra seca
onde ainda existem
novas sementes

Amanhã,
nunca será amanhã
quando na terra
plantar vontades novas
de te trazer
de novo a mim

Para o Pai, os Pais
Dolores Marques

segunda-feira, 17 de março de 2014

Nova ordem das coisas

A normalidade
é fruto de uma desordem
cedida ao normal funcionamento
da ordem estabelecida

Há deuses por todos os cantos da terra
e todos sabem da nova ordem
das coisas terrenas

Sabem também da minha descrença
ao consentir-me dias santos
sem me lavar com água benta
mas também sabem da minha consciente
anormalidade em convergir
com outras coisas mais transcendentes
em lugares onde os vivos se remedeiam
e os mortos se presenteiam
com novos lugares comuns


DM(Dakini)