Chiado Editora
"Deus não é um conceito muito filosófico, é este mundo visto através dos olhos de uma criança" (OSHO)
quinta-feira, 17 de julho de 2014
domingo, 13 de julho de 2014
Uma leitura a "Uivam os Lobos" por São Gonçalves
"Uivam os lobos" Dakini.
"Quando existem pessoas com a capacidade intrínseca de esmiuçar palavras,verso a verso, poema a poema, revolvem-se as páginas em branco, sente-se a respiração ofegante do livro e no imediato momento silencia-se".
Assim começa uma parte da dedicatória que me foi dedicada do Livro "Uivam os lobos " da poetisa Dakini
Assim começa uma parte da dedicatória que me foi dedicada do Livro "Uivam os lobos " da poetisa Dakini
Devo começa por dizer que esmiuçar estas palavras e estes poemas,nunca foi tão fácil e tão difícil ao mesmo tempo.
Os poemas deste livro levaram-me ao centro das minhas emoções,das minhas memórias,das vivências de menina nascida e crida numa aldeia do litoral do pais.
Existe uma semelhança de caminho percorrido,de trabalhos realizados de cultos venerados.
Descobre-se através deste livro um sentimento de pertença a uma identidade ,uma identidade pessoal,uma identidade social ,cultural e religiosa.
Pela viagem que se faz através dos poemas ,a memória de um povo renasce naquilo que pode ter de mais rico,de mais humano,de mais verdadeiro.
Moção a Terra Mãe da autora ,serve de inspiração e de palco,onde as mais variadas tarefas rurais,os mais variados cultos,o sagrado e profano se desmistificam nas palavras e nos poemas.
O exemplo disto está logo nos primeiros poemas do livro.
"Traziam campainhas
a chocalhar nos montes
e nas mãos
línguas de fogo
douta inspiração
chegada cedo
de lugares primitivos
-miravam-se em rios de água benta
de um pranto amarelecido.
Será este poema uma alusão às curandeiras das aldeias,mulheres com uma sabedoria imensa,e temidas por tanto;,mulheres que misturavam o sagrado e o profano,curavam as feridas do corpo e da alma com as ervas colhidas nos montes e as orações veladas.?
Há em todo o livro uma relação ao religioso,como se os elementos da natureza e o culto dos homens fossem a única redenção à solidão dos homens e das mulheres esquecidos no meio da serra,cuja força pode despertar sentimentos ora de posse ,ora de de abandono,ora de medo,ora de fascínio.
" A rua onde moro
é escura no pranto
ladainha surda
como um lobo da matilha
na voz clara do amianto
O beco onde te encontro
é mansão de luas novas
calafetadas nos beirais
onde um isolado lobo vive.
Uivo quente
mas eloquente
em transe por mais
sempre mais
calafrios"
A força da serra e o encanto do rio que a atravessa é uma constante neste livro.As serras servem muitas vezes de eco aos lamentos dos homens e dos animais,de refugio as inquietações e medos,e o rio, um local de paz e de redenção.Alquimia do ser ,os elementos da natureza,A Terra,a água e o ar,confluindo para uma vontade de metamorfose.
"Ouvir o som
de uma voz inquieta
quando nela descansa
um luar enfraquecido
é saber que está além,
e não aquém,do saber
quando já tudo se viu
nas correntes de um rio."
Dizia no inicio deste meu trabalho escrito,que este livro é um livro de pertença uma identidade ,seja ela social,cultural ou religiosa.
Sabe-se através da biografia que Dakini,deixou a terra natal ainda em criança,e que apesar disso a visita muitas vezes,e de onde sempre renova a sua inspiração.
Sabe-se também que a memória é um rio onde correm todas as metáforas,todas,as alegorias.
Este livro prova mais uma vez ,que a preservação das nossas raízes,da nossa identidade ,da nossa memória pode ser preservada pela poesia e pela viagem ao lugar mítico da nossa existência.
São Gonçalves
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Ana Coelho apresentou Dolores Marques em Uivam os Lobos
Dolores Marques
A viver em Lisboa desde os 10 anos mas nunca esquecendo as suas origens. Sempre teve a necessidade de fazer outras coisas que não as de sempre, num período da sua vida, aceitou o convite para integrar o grupo folclórico e etnográfico da Casa do Concelho de Castro Daire em Lisboa, onde permaneceu cerca de 3 anos. Mais tarde foi impulsionadora na criação de um grupo de música tradicional portuguesa, com alguns elementos do rancho e outros que entretanto conheceu, tendo-se mantido este grupo apenas um ano, mas com um trabalho representativo dos cantares tradicionais da sua região, entre outros.
A fotografia é também um foco de interesse, focando-se ora na paisagem granítica da Serra do Montemuro, ora nas correntes do Rio Paiva, que passa próximo da sua aldeia, ou então; captando expressões de rostos, que com a terra convivem e dela tiram o seu sustento. Na cidade, os becos, os grafitis, as quintas abandonadas, os palacetes antigos, o rio Tejo são o que mais atrai a sua objetiva.
“Aldeias da minha cidade” o título que tem dado aos últimos álbuns de fotos publicadas; são exemplo de que existe um fio de ligação entre a cidade e o campo, que ainda se mantém. O que se pode observar também, em outros álbuns a que deu o título de “Fragmentos do tempo”.
O primeiro livro de poesia “Olhares” surge em 2008, revelando assim o início da sua escrita. Neste livro nota-se já, uma forte ligação à sua terra natal e a todo o ambiente onde cresceu e passou a sua infância - A Serra do Montemuro, assim como o Rio Paiva, são imagens recorrentes e aqui descritas de forma simples e natural, tal como era a sua escrita acabada de nascer, havia poucos anos.
Logo após regista-se no site da editora WAFF onde inicia a publicação regular dos seus poemas, seguindo-se o site Luso-poemas. Site este; onde nos conhecemos e a Dolores foi um elo importante na minha escrita e naquilo que hoje sou na escrita, foi ela a impulsionadora para a minha primeira participação num livro; com a antologia Tu cá Tu Lá em 2009. Esta antologia nasce de um blogue, que a Dolores criou com o objetivo de unir autores e divulgarem as suas escritas. Criamos uma ligação de amizade e ajuda mútua, onde me foi permito conhecer a mulher para lá da escrita. Uma mulher com a força das suas palavras na vida.
“Subtilezas da Alma” foi o seu segundo livro de poesia editado em 2009 e o seu primeiro em prosa “Às Escuras Encontro-te” aconteceu em 2010.
Comecei a ler Dolores Marques, após edição do seu primeiro livro “Olhares”. Um livro de poesia simples e fluida aberta a todos os leitores.
Seguindo-se o livro “Subtilezas da Alma”, e alguns textos em prosa publicados nos sites que fazia parte, realça o seu interesse por uma filosofia oriental, período em que se dedicou a estas, e que complementou com a primeira e segunda iniciação em Reyki. Fez o primeiro nível de Sistema de Corpo Espelho, e inicia a prática de Taichi/Chikung
Os temas que apresenta na sua escrita vão-se alterando com o passar do tempo, querendo dar ao leitor e a si mesma a autora e não a mulher, Dolores Marques inicia uma separação da sua escrita:
Dolores Marques desaparece dando voz ao perfil “Ônix” - Matilde D’ônix.
Pouco tempo depois surge Dakini. A necessidade de revelação de um Eu mais realista; mais terra, mais ar, mais fogo, mais água. Um todo, tendo como ponto-limite, um ponto no espaço infinito. Um céu maior. Os fluxos migratórios das gentes da terra provocaram o seu encontro com a cidade onde vive há cerca de 50 anos. Mas mais uma vez, volta às origens e nota-se em Uivam os Lobos e outros textos que a sua inspiração vem de lá das terras altas.
Mais tarde, surge com outro perfil “Epifania”. Aqui manifesta-se um Eu oculto, que se revela em vários momentos da sua escrita. As publicações são na sua grande maioria em prosa, e os temas muito diversificados, ora terra, ora ar, ora fogo, ora água. Após questionar a autora sobre este perfil, que se manifestava de forma irregular na sua escrita, sendo que algumas pessoas inicialmente não entendiam muito bem se eram duas ou se só uma naquele perfil. Pessoalmente gostei muito deste pseudónimo e das duas vozes que “falavam” ao leitor.
Confidenciou-me que levou algum tempo a entender quem dialogava com ela e a levava a escrever aqueles diálogos e que só poderia ser Dakini. Podemos aceitar que nos diálogos de Epifânia, a Dakini aparece e desaparece como por encanto? É que pelo que percebi, Epifania tem estado muito silenciosa. Será que ficou zangada, por este livro ser da Dakini e não dela própria?
Resumindo e pelo que já conversei com a autora, sobre estes pseudónimos, eles não foram pensados nem idealizados, foram surgindo consoante as variações da sua escrita e que segundo ela, serviram para separar a escrita, nos sites tal como a tinha já separada e com os devidos nomes. Dando a quem a lê a multiplicidade criativa de uma mulher \autora construtiva e diversificada.
O seu maior orgulho de agora; os seus 3 netos, Guilherme, Afonso e Tomás
Tobias Rocha também fotografou
segunda-feira, 30 de junho de 2014
Apresentação de "Uivam os Lobos", por Filipe Campos Melo
Boa
tarde,
Começo
por agradecer o convite da Dolores, uma querida amiga que muito estimo, e dizer
que é com muito gosto que aqui estou.
Cabe-me,
nesta sequência, a apresentação do livro que hoje aqui nos trás
A
primeira tarefa para quem pretende apresentar um livro é, evidentemente, ler o
livro,
E
assim fiz.
Acontece
que, efectuada essa tarefa, surgiram-me vários questionamentos,
Esclareço,
nenhum em relação às palavras que hoje vos são apresentadas, porque reconheço
nesta escrita uma evidente qualidade, quer pela profundidade, quer pela
sensibilidade, características que sempre encontro no verso da Dolores
Mas
uma hesitação prolongada quanto à forma de iniciar esta apresentação
É
que, após ler e reler, demoradamente, o livro, surgiram-me, quase
instintivamente, inúmeras ideias e formas de o abordar
E, de
facto, talvez seja apropriado falar de abordagem quando nos dispomos, como foi
o meu caso, a invadir as palavras de outra pessoa,
Embora,
confesso, terminadas as leituras, a sensação que permaneceu é de que, afinal, foi
o texto que me invadiu, numa pluralidade de inquietações.
Resolvi,
então, deixar as palavras repousar durante uns dias,
Até
que, num determinado momento, um eco se tornou predominante
“Não se deve voltar ao lugar onde fomos felizes”.
Devo
esclarecer que, definitivamente, não concordo.
Eu,
pessoalmente, recuso-me é a voltar aos lugares onde fui infeliz.
Mas,
na verdade, todos nós, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, regressamos a
esses lugares
Esta
ideia – de não voltar ao lugar feliz – impôs-se, assim, como o ponto de partida
para esta apresentação
E
como um improviso absoluto é sempre absolutamente imprevisível, vão-me permitir
que vá utilizando umas notas que alinhavei a este propósito
“Não se
deve voltar ao lugar onde fomos felizes”.
Ora,
regressar a um lugar, percorrer um caminho anteriormente percorrido, é sempre
uma peregrinação.
Poderíamos
talvez definir o conceito dizendo que uma peregrinação é o caminho que um devoto, voluntariamente,
se predispõe a fazer rumo a um lugar que crê ser sagrado.
Assim,
uma peregrinação é sempre uma romagem motivada numa crença.
Às
vezes é prece, promessa ou profecia,
Outras
vezes é autopunição e até via para a redenção de um “pecado-passado”.
Há,
contudo, na sua variação conceitual, constante e inquestionavelmente, um traço
de religiosidade que lhe é indissociável
E se
assim é, para compreender uma peregrinação é absolutamente necessário, antes do
mais, perceber porque determinada pessoa se predispôs a efectuá-la.
Mais
ainda quando sabemos que peregrinar tem sempre imanente uma ideia de penosidade
e de sofrimento.
Esta é a minha fundamental convicção
– este livro é uma peregrinação.
É
certo que, enquanto caminhar, uma peregrinação implica movimento,
Mas,
todavia, peregrinar não exige necessariamente um deslocamento físico, nem o seu
percurso é necessariamente medido em metros.
A
invocação interior de uma memória é seguramente uma deslocação, mesmo sendo,
como reconheço, uma deslocação inerte.
Este
movimento (aparentemente imóvel) reconduz-se como pensamento
E o
pensamento, pela sua inderrogável essência, estático nunca é.
Assim,
quando é só pensamento, a peregrinação é um vaguear, um percorrer de lugares
passados, nos quais, bem sabemos, a angústia sempre assoma e nos confronta.
Pela
própria natureza do passado, que, por o
ser, não volta mais.
Mas
se o passado – precisamente por ser passado
– não volta,
A ele
– por passado ser - podemos nós
regressar.
Assim
se pode encontrar, nos primeiros versos do primeiro poema, a anunciação de um
caminho
«Traziam campainhas
a chocalhar nos montes/
e nas mãos
línguas de fogo/
douta inspiração/
chegada cedo
de lugares primitivos»
Reitero,
na minha interpretação, sempre discutível e subjectiva, “Uivam os lobos” é uma
peregrinação.
Um
regresso ao lugar passado, seguramente,
Ou
como diz o verso, “aos lugares
primitivos”.
Não
deixa, aliás de ser curioso notar que, em latim, peregrinação diz-se “per
agros”, ou seja “pelos campos”.
Por
lugares e também por um “Eu”, interior e
anterior, que se auto observa.
E, de
facto, no livro, pelo verso, o sujeito poético retorna à terra inicial, no
mesmo recriada, como bem se refere no prefácio deste livro,
Nesse
prefácio, aliás excelente e que enriquece o livro de forma marcante, desenvolve-se
a ideia
Dessa
umbilical ligação do verso à terra, tantas vezes infértil,
Da indissociável
raiz da palavra que se escreve num palco de memórias, onde se encena, citando o
prefácio, “todo um imaginário que
acompanhará (a autora) ao longo da sua vida, despertando-lhe tanto medo quanto
fascínio”.
Afirmação
que, aliás, o verso confirma
«Estão as portadas fechadas
e eu tenho frio/
muito frio dos lugares inóspitos/
e medo/
muito medo dos açaimes brancos»
e eu tenho frio/
muito frio dos lugares inóspitos/
e medo/
muito medo dos açaimes brancos»
E quando
assim é, voltando ao prefácio,
“Nenhuma defesa será suficiente contra as
raízes que se estendem da terra até ao Homem, fixando-se nas redes inefáveis e
inevitáveis da sua memória”.
E é
exactamente através dessa memória que se inicia esta peregrinação ao passado,
É um
regresso a um determinado tempo,
Um
tempo inicial, percorrendo os campos, voltando á fonte da inspiração, original
Mas
não só,
O
sujeito poético, observador, parte de um tempo presente e regressa aos lugares
passados, através da memória, recriando esses lugares,
Mas
também, num movimento ambivalente, projecta-se no futuro, mimeticamente antecipando
o devir, poeticamente o pressagiando.
Diz o
verso
«Tenho medo/
muito medo das colinas/
onde me esperam
outras histórias /
visionárias de novos mundos»
muito medo das colinas/
onde me esperam
outras histórias /
visionárias de novos mundos»
Como
referi, para se perceber uma peregrinação é necessário compreender a motivação
que a sustenta.
Dispus-me,
assim, a tentar perceber qual a motivação deste livro, desta peregrinação.
Uma
das pistas mais imediatas é a percepção da sistemática em que o livro se
estrutura
O livro
é composto por dois capítulos e, diria ainda, por um epílogo
Função
que atribuiria ao último poema “Já me vi em dias de Sol, sem sol”, para mim,
aliás, talvez o mais belo e profundo poema deste livro.
Todavia,
se realmente o for, é um epílogo oculto, porque no livro não o encontramos com
essa autonomia formal
O que
encontramos é um primeiro capítulo denominado “Mimetismos”,
E um
segundo capítulo intitulado “Cultos”.
Ora, poderíamos
dizer que mimetismo é a semelhança que um determinado ser ou organismo adquire
por influência do meio onde se insere,
É, no
fundo, a adaptação a uma realidade através da sua replicação
Estamos,
aqui, portanto, perante o conceito de evolução
convergente
Na
verdade, todos somos objecto de socialização, de forma sempre intensa, muitas
vezes forçada
E, cada
vez mais, vivemos numa sociedade mimética
Do
ponto de vista das espécies,
Referência
inevitável em face do título do livro,
O
mimetismo é um processo de evolução da espécie, resultado da sua mútua
interação, que conduz a uma harmonização ou padronização de comportamentos
Neste
livro, o sujeito poético figurado é um lobo, melhor uma loba, que
Tendo
deixado a alcateia, caminha agora solitária,
Num
percurso que procura a compreensão do mundo onde se insere,
Mas
que é simultaneamente um percurso de auto-compreensão
Este
primeiro capitulo do livro, é o regresso ao passado, á terra,
E,
assim, aqui vamos encontrar o sonho, às vezes pueril, a crença, o amor (o
conceito primeiro, o amor original), mas também a desilusão, a descrença, o
desamor que logo lhes sucede
E,
assim sendo, existe também, imersa ao verso, uma ideia de evolução divergente, na medida em que percebendo a sua mimética aculturação,
num olhar ao espelho, o sujeito poético rebate-a, questiona-a, rebela-se
Na
verdade, há aqui uma ideia de destino, a ideia de uma predestinada convergência
com um mundo que não era o pretendido, mas que é o mundo efectivamente existente
– o presente
Assim
diz o verso,
«Não
sei porque te desenharam um rosto/
te deram formas ignorando o simples facto de te saberes uniforme/
contornando as margens das velhas correntes
que estagnaram no lodo que as fabricou»
te deram formas ignorando o simples facto de te saberes uniforme/
contornando as margens das velhas correntes
que estagnaram no lodo que as fabricou»
Dizem
que os lugares se alteram com a passagem do tempo
Mas
muitas vezes o passar do tempo altera ainda mais a pessoa que os observa
Talvez
os lugares nunca sejam exactamente iguais,
Mas
certamente diferente é o sujeito quando a eles regressa
Assim,
este movimento de regresso nunca se chega a desprender completamente do
presente que o observa, e, por essa razão, sente-se no verso uma profunda
nostalgia, às vezes saudade, às vezes conformação, outras vezes até crítica
Como
se escuta no verso
«Dá-me da madrugada
o que é a tua voz/
e diz-me dum sítio/
dum lugar incerto/
mas dum tempo certo
onde me esconder»
o que é a tua voz/
e diz-me dum sítio/
dum lugar incerto/
mas dum tempo certo
onde me esconder»
Porque
as coisas nunca são como as imaginamos, nem sequer como as vivemos, há uma
marcante nostalgia neste capítulo
Até
porque, afinal, esta peregrinação é uma auto-peregrinação
O
segundo capítulo denomina-se “Cultos”
Um
culto processa-se por um acto solene, por uma liturgia
Um
culto é, assim, um caminho solene para a compreensão,
Quando
se perceciona o objecto do culto,
Compreende-se
também a identidade e a motivação do devoto.
Neste
sentido também neste capítulo encontramos um caminho de auto-compreensão
Mas
já não no tempo passado,
Agora
é um estar, um passo presente que, simultaneamente, antecipa o futuro
E,
assim sendo, necessariamente um espaço de esperas, como se diz no primeiro
poema desta parte
«Mundo submerso
por duas lágrimas
a molharem-me os pés
ainda nus sobre a terra/
enquanto a chama corrente
aguarda pelas variações/
num tempo de espera»
por duas lágrimas
a molharem-me os pés
ainda nus sobre a terra/
enquanto a chama corrente
aguarda pelas variações/
num tempo de espera»
Mas é
também um espaço de angústia, às vezes nostalgia, outras quase desespero
«Aconteceu-me um tempo
que me arrasta
lá para os lados
onde me esperam
todos os moinhos de vento»
Cultos, é assim, um auto reencontro, entre a percepção de um passado, tanto aculturado, quanto doloroso,
que me arrasta
lá para os lados
onde me esperam
todos os moinhos de vento»
Cultos, é assim, um auto reencontro, entre a percepção de um passado, tanto aculturado, quanto doloroso,
E o questionamento de um
presente-futuro
Deste
movimento emerge a poesia, num olhar que se define métrico poema
«Tristes
são todos os olhares
que
engoliram o mundo /
sem
saberem
onde
enterrar os corpos/
Foices
a calcular a métrica
que
os fará alcançar /
os
caules
as
folhas
e
as
raízes secas
junto ao chão»
Permitam-me
apenas mais um sublinhado,
Existe
um traço essencial que percorre todo o livro,
Que é
simultaneamente mimetismo e culto,
Um
amor, uma emoção profundamente marcante, que procede da origem e que, ainda que
agora ausente, se mantém demasiadamente presente
Como
por exemplo se sente neste trecho:
«Esqueci-me de ti
quando o vento se aproximou /
falando-me nas horas vagas
dum mar imenso de saudade»
quando o vento se aproximou /
falando-me nas horas vagas
dum mar imenso de saudade»
Disse
que para se perceber uma peregrinação seria necessário compreender a motivação
que a sustenta.
Retomo,
agora e como ultima referência, o título do livro: “Uivam os lobos”.
Um
uivo é um grito entristecido, um eco de um passado que se antevê igual
E, se
assim é, pergunto-me: Mas, afinal, porque uivam os lobos?
Escutemos,
uma última vez, o verso
«Uivam
os lobos
por falta de nortadas quentes/
caminhantes na certeza
por falta de nortadas quentes/
caminhantes na certeza
de
uma única noite/
que será eterna»
que será eterna»
Filipe Campos Melo
quarta-feira, 28 de maio de 2014
"Uivam os Lobos" o meu próximo livro de poesia
“Uivam os Lobos” assemelha-se a um palco de memórias. Nele se contam, e encontram, de um modo imensamente vívido, uma série de imagens remanescentes de um outro tempo, aqui presente sob a forma de um eco, retumbando por entre os versos que o firmam.
“Sou libertina de um costume antigo
tenho o corpo feito de metais
boca de sangue e ferro
braços presos nos matagais”
(Do poema “Tenho medo”)
“Soando nas têmporas
as batidas cardíacas
a reboque de um eco forte
no alto da cabeça”
(Do poema “Marés Negras”)
Nos poemas de Dakini, os quatro elementos confluem de um modo contínuo e extremamente natural estando estritamente ligados à vida de quem vive no (e do) campo, debatendo-se com os efeitos nefastos das intempéries e jubilando com os tempos propícios ao afloramento. Desta forma, somos convidados a tomar parte de um mundo recordado e, consequentemente, também recriado, onde se ouvem as campainhas “a chocalhar nos montes” e o “caminhar das águas”, ao mesmo tempo que o fogo se ateia para que nele se concentrem “todas as fogueiras” e o “vento uiva”, apesar do seu eco adormecer sozinho “a contraluz”.
Moção, a terra-origem de Dakini, desempenha, neste livro, um papel fulcral, servindo, não só de cenário e inspiração, como também de lugar de aprendizagem - já que foi aqui que a autora deu os seus primeiros passos e absorveu as suas primeiras estórias, iniciando a construção de todo um imaginário que a acompanhará ao longo da sua vida, despertando-lhe tanto temor quanto fascínio(...)Do Prefácio de Sofia Gabro
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Espantos
Caminhava lentamente
e sofregamente, engolia o silêncio
Mastigava em seco
as imagens rebuscadas
num dia sóbrio
Era o dia da sagração dos eleitos
mas, pecadores em dia de jejum
Ajoelhava-se perante
o mesmo cálice
erguido em jeito de oração
Mirava-se naquele leito de águas paradas
com todos os nomes
rebuscados e santificados
Aguardava ainda por novos ventos
esboçados com a pena gasta
e cansada
Chegara por fim o momento
que humildemente
lhe fez frente à tez morena
A aridez que descia do alto
toldava-lhe os movimentos inventados
num molde inexpressivo
Humanamente desenraizado
sem saber como sorrir
cerrava os dentes
enquanto mordia ainda
o sabor adocicado de um dia fértil
de espanto
e sofregamente, engolia o silêncio
Mastigava em seco
as imagens rebuscadas
num dia sóbrio
Era o dia da sagração dos eleitos
mas, pecadores em dia de jejum
Ajoelhava-se perante
o mesmo cálice
erguido em jeito de oração
Mirava-se naquele leito de águas paradas
com todos os nomes
rebuscados e santificados
Aguardava ainda por novos ventos
esboçados com a pena gasta
e cansada
Chegara por fim o momento
que humildemente
lhe fez frente à tez morena
A aridez que descia do alto
toldava-lhe os movimentos inventados
num molde inexpressivo
Humanamente desenraizado
sem saber como sorrir
cerrava os dentes
enquanto mordia ainda
o sabor adocicado de um dia fértil
de espanto
Dolores Marques (Dakini)
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Milagre
O crepúsculo não demorava
a chegar
à terra dos justos
Ergueram-se das catacumbas
com os braços tombados
o corpo desajeitado
o olhar desconfigurado
sobre os sulcos ainda
amaldiçoados
Rezavam a ladainha
de todas as noites
enquanto os sinos
se preparavam
para o último som
que rasgaria a terra
e bradaria aos céus
por um milagre
a chegar
à terra dos justos
Ergueram-se das catacumbas
com os braços tombados
o corpo desajeitado
o olhar desconfigurado
sobre os sulcos ainda
amaldiçoados
Rezavam a ladainha
de todas as noites
enquanto os sinos
se preparavam
para o último som
que rasgaria a terra
e bradaria aos céus
por um milagre
DM/Dakini
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