segunda-feira, 8 de abril de 2013

Era o fim


Era o fim de tudo
- de tudo o que não fosse tulipas brancas
Era quando floresciam e se deixavam enamorar pelo tempo
Era o fim de tudo
- de tudo menos das tulipas brancas

Dizia-se que eram tempos de mudança e eu acreditei
tal como acredito ainda no branco dos teus olhos.
Cabia neles como quem cabe nos intervalos do vento

E tu…
Bem... tu não te fazias ouvir como no tempo em que os jardins floriam

Os lírios roxos já se foram
Era o tempo deles…de se calarem no seu tempo

Era o fim de tudo, de tudo o que não fosse tulipas brancas

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Será que a poesia tem alma?


Jamais a alma sente
O que o corpo desmente
Enquanto pedinte na sua incursão
Pelas avenidas novas
Jamais os rios sussurram
Enquanto as correntes estagnadas
Aguardam pela ressurreição das águas

Serão elas a única esperança
Para quem vive, e só
Para desenhar com palavras
As sombras que escondem um rosto
Ainda inocente

Para crescer basta ousar Ser
Mas para Ser é preciso ousar saber
Que o mundo é mundo
Só porque existe o céu
E ali, nascem e morrem as estrelas
Só porque o sol é o astro rei
E ali, escondem-se todas as pedras preciosas
Só porque existe a vida
E com ela a verdade nua e crua
De quem vive, cresce e morre até ao juízo final

Mas à noite acontece a lua
Para encomendar os sonhos nefastos
Daqueles que andam nus
A reescrever versos
Como pano de fundo
Da noite dos poetas vivos
E também dos poetas mortos

Mas de dia acontecem as primaveras
Para remendar os pesadelos
De quem ainda não vive no presente
Traçando em versos do passado
O berço da sua realidade

(Aguarda ainda para crescer na vontade
De querer ousar Ser de verdade?)

Que futuro incerto brilha agora
Nos seus olhos!
Sim, incerto por ser a sua verdade
Esmagada contra a corrente
Que os prende ao passado
E não os deixa viver o presente

Jamais as palavras serão correntes
Enquanto nos rios morrerem poemas
Criados com cruzes ao peito
E sinais da cruz tortos
Arrematados da direita para a esquerda
Testa com testa
Boca com boca
Ombro com ombro
Salpicados com água benta
Já estagnada nas pias batismais

Jamais será a poesia
A fonte de água cristalina
Enquanto nos banquetes
Se saciam os poetas
De fel, como se fosse o mel

Sabe-se que o mel adoça a boca
E escorre por todas as entranhas
Onde a voz se amacia
Tal como os seixos dos rios

Sabe-se que a órbita de um corpo celeste
Entra em ação quando
No seu corpo palpita o coração

Pobre coração que sente
E não se desmente
Pobre alma que escurece
E não se abastece da maior noite estrelar
Pobre poeta que escreve
E não se subscreve em sentimento

Aquele que se juntou às mais altas esferas
É passado, presente, e futuro
Lá, sim onde se dá o renascimento da poesia

- Será que a poesia tem alma?
Pergunta-me o poema

Jamais será o poeta, o astro rei da poesia
Enquanto não ressuscitar dos mortos
E sair dos escombros onde amontoou
Palavras, e mais palavras
Despidas de sentimento

- Jamais, jamais, jamais…a rima perfeita
Para início de um poema sem rimas
Mas ritmado no centro
Onde nasce o sentimento

Bate agora com a mão no peito
- Amem, amém, amém,
E no centro do seu corpo ouvem-se rumores
Versos que gemem por mais água benta
Gemem, gemem, gemem
Querem sair e rodopiar
Mas o corpo saiu de órbita
E nada o fará voltar
A ser céu
E lua
E estrelas
E até fonte de água cristalina
A correr montanhas
E a saciar os rios de novas correntes

E diz ele que é poesia
E diz ele que é poeta
E diz ele que fala
Quando o que sente o cala
E o leva a sonhar
Com as sombras ainda caladas
E sufocadas no seu olhar

Enquanto crescem as flores
Ele abandona os andores
Enquanto cantam os pássaros
Ele abdica de voar no céu
Enquanto crescem as árvores
Ele despe-se nas margens do rio
Enquanto jorram as fontes
Ele bebe do que julga ser o supremo
Esse incitador que lhe diz
Que é o eleito
Pela seleção da ordem natural
Escolhido para correr mundo

Mas e a poesia? Essa fica enjeitada
Ou mesmo calibrada nuns quantos punhados
De pepitas de ouro
Quando cantada, ou simplesmente
Arreada no solo fértil
Onde o poeta semeou a sua vontade

Jamais será o verso
Estrela cadente no seu cio
Por ser fêmea adultera
E poeta inculta
Nas avenidas novas
E até nas velhas
Onde estancou agora os seus passos
Para ver só, até onde irá
Quando já nada tiver para sossegar
O corpo e elevar a alma

(Dolores Marques – Ônix; Eventos 2013)

terça-feira, 2 de abril de 2013

Histórias sem passado e nem presente


Contei todos os quadrados e ultimei o meu desejo de ser a figura mais carismática de todas. Ajoelhei e orei a todos os santos, menos àquele que me disse um dia que seria só mais uma peça jogada nas masmorras onde todos dormem, enquanto não chega o dia do último sacramento.
Avisei-os a todos, mas... não me quiseram ouvir. Fizeram ouvidos moucos e retrocederam ao sítio onde tinham deixado os olhos. Ficaram assim sem conseguir enxergar as marcas dos seus pés de chumbo e, curvaram-se então todos para a mais bela oração de todos os tempos.
Era chegada a hora de se redimirem. Deitaram-se todos. Colocaram as cabeças, cada uma em sua quadrícula, para ser posta à prova a sua inteligência. Emocionaram-se todos aqueles que não cabiam nos quadrados e foram feitas as contas elevadas ao cubo para satisfazerem a sua vontade de se materializarem ali mesmo.
Da diferença resultou a soma. O equilíbrio forçado foi aceite por todos. Ficaram só histórias sem passado e nem presente. Renasceram para fazerem uma nova história e aí… começa tudo de novo!
Até quando, até quando para os preparativos de uma nova história? Mas agora sim, com princípio, meio e fim, em todas as figuras geométricas.

(Dolores Marques; Dakini - Eventos 2013)

quarta-feira, 20 de março de 2013

Uma era da cor do sol


Eram dourados o céu e a terra
Era um olhar cor de bronze
Nascido numa era da cor do sol

Dos olhos saltavam faíscas
Tais pirilampos a cobrir a noite

Na boca nasciam rios
À semelhança de outras eras
Propícias à nova estação

No corpo germinavam
Novas sementes
De onde nasceriam novas flores

Nas mãos nasciam
Outras brisas ressequidas

Nas pontas dos dedos
Havia ventos ciclónicos
A separar os raios solares

Via-o sempre nos meus sonhos
Esguio o corpo, felinos os gestos
Olhos fixos no mesmo local
Onde me encontrou

Caminhava breve
Soluçava em prantos
Movia-se como se fosse
Nuvens de algodão

E assim se lembrou
Como as noites baixam
Nos meus olhos

E,  sendo livre o meu sonho
É-o na forma abstrata
De um pensamento
Quando tenta dar
Novas formas ao corpo
Nascido e criado no mesmo lugar

É agora a hora de mudar as cores
Que nascem nas quedas de água cristalina

Os olhos tombam
As mãos descaem
O corpo amolece
O olhar sucumbe

O pensamento quebrou-se
Nos momentos em que nada
Lhe pareceu igual à cor do céu

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Quando tento entrar no olhar de uma criança


Quando tento entrar no olhar de uma criança, (penso enquanto criança, ou enquanto ser divino mais consciente), que  a terra é única, mas incapaz de sustentar o nosso peso já morto;  o de gente desconfigurada, o de gente indigente,  o de gente inventariada, o de pagodes a tentar ajustar os modos grossos, corpos e anticorpos gravitando no mesmo espaço, esquecendo a lei da gravidade. Quando a criança me olha, sinto um calafrio na espinha, uma dor tão fina que me tolhe toda. Fico assim meia desmiolada, ao tentar lembrar-me de como era tão bom sentir-me um ser pensante mas elevado ao mais alto grau de sabedoria que gravita no Universo.

- Enquanto não nos soubermos simplesmente pessoas, andaremos todos (homens e mulheres) a tentar satisfazer o prazer dos corpos, esquecendo o prazer da vida que nos oferece manjares divinos.
- Apesar de sermos feitos da mesma massa, não estamos ainda a dar fornadas únicas e apetecíveis a qualquer boca esfomeada.
- Há bocas tão carentes de brisas divinas, que sacam da atmosfera,  bolhas de ar removíveis; mastigam-nas, engolem-nas, e nunca lhe sabem o sabor. 
- São assim uma variável indecifrável, ainda a tentar aconchegar-se nas brisas do sul,  esquecendo o seu norte.
- São assim uma espécie a tentar encontrar todos os quadrantes dos seus corpos, enquanto do norte sopram nortadas tão fortes, capazes de partir todos os gestos que se encontrem à deriva.

Porque não somos simplesmente pessoas independente do género?
Porque não sabem os homens ser homens, e as mulheres ser mulheres, mas gente?
Porque os homens e as mulheres se desmentem, quando tentam  encontrar nos corpos, simplesmente o prazer dos corpos?

Há ainda um caminho que espera pela certeza de que há caminhadas longas, mas que têm pela frente, todas as esperas resguardadas no olhar de uma criança.
Até lá vamos tentando não esquecer de quando fomos crianças e todas as brisas serão aromas nos nossos corpos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Máscaras


Se TODOS os dias
fossem dias de Carnaval
seríamos TODOS mais felizes….

Seríamos assim uma nova espécie de dor
a tentar sara as feridas, 
tal como tentamos curar a vida,
em dias de Carnaval sem máscaras

Ou serão as máscaras que nos cicatrizarão todas as dores que carregamos
 por serem tão promíscuas e obsessoras…?

Teríamos por fim uma nova sanidade mental…

- a dor seria a personagem principal
nós a representação de todos os carnavais 

- enquanto as máscaras ensaiam uma nova representação…

A peça irá começar dentro em breve!

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Muros


Sabia ao que vinha. Daquele lado, o vento assobiava aos meus ouvidos, como se eu fosse a alegria de um dia sim, a sorrir para o céu. Adivinhava-me e sorria-me sempre que eu lhe estendia a mão. Se não fosse pela minha fraca audição, saberia até ao que vinha no exato momento. Para quê tentar saber as coisas antes delas se sucederem como sucedem as rajadas de vento nos meus ouvidos? 

Bem gostaria de me permitir ser em todos os dias como o vento a querer saltar os muros que ladeiam a minha casa. Estão agora cobertos de musgo. Arredei todos os tijolos de vidro, para que não se sentisse nenhuma silhueta na parte de fora. Cobri-os com tinta plástica da cor do alcatrão e até colei neles recortes de jornais diários, onde se podiam ler as notícias todas que nos fazem cair em nós logo pela manha. À noite já não é a mesma coisa. A tinta escorre, os recortes ficam todos torcidos, e ainda se podem ver transparências a quererem sair de um espaço fechado.

Hoje à noite ligarei  a televisão no canal Panda. Aprendi com os meus netos. Nada melhor do que passar um tempinho antes do jantar a ver desenhos animados. Animam, animam e descontraem os músculos da cara. Não fico com os olhos tortos, se é que me faço entender. Se não entenderem, é porque não têm o canal Panda e vêem a casa dos segredos, ou a Gabriela. Não! A Gabriela já terminou! Dessa até gostava. Não tenho mais nada que me faça rir à noite. Gostava mesmo daquele ar descabido de alguns mestres das artes antigas a tentarem usar o que por si só já está mais que usado. Aquela frase deixava-me de pernas para o ar de tanto rir. “Deite-se que vou-lhe usar”.

Bem, mas agora pensando bem, penso que terei que pintar os muros de tijolos de vidro de outra cor. Vou usar cores berrantes para se poderem ver de cima. Assim quando o vento se quiser fazer ouvir nos meus ouvidos e estiver para chegar poderá lançar-se de para-quedas . Fica logo em casa. Para alguma coisa terá que servir este meu esforço em ter cores que saiam fora do âmbito normal dos usos e costumes de um povo a construir muros e outras coisas. 


(DM, através de Dakini)