sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Fome






Alimentam-se do meu corpo
Os senhores da morte
Trazem com ela
Todos os escombros
Duma só noite

Mas há noites lendárias
Para os filhos da miséria
Têm ruínas na alma
De tanto ajoelhar no chão
Em busca de pão

Seriamente vos digo
Que gosto de pão de mistura
Cozido num forno a lenha
Mas quem disse 
Que a lenha arde sem fogo?

Tenho um forte apego
À terra, ao rio, ao mar e ao céu
Mas dizem que a fome é negra
A mais ousada criatura
A criar filhos na noite

Destituídos dos seus modos
Excomungam os meus sonhos
E que voltarão sempre
Que houver miséria humana
A desonrar a sua castidade


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Tudo é silêncio

 Quero do fruto proibido
A desordem natural
Espero a vida num labirinto
Mas não vejo a entrada
Não vislumbro uma saída

Bebo da fonte
Todas as vontades
Sacio o meu desejo impuro
Mato a minha sede agreste

O extermínio
É a força dominadora
Ouve-se o último tinir do vento
Na revolta do meu corpo
Não sinto a minha alma

O frio é agora um manto seco
Agruras de outros tempos
A sua incompleta figura
Calou-me
Amortalhou-me
Sufocou-me

Segui numa eterna procura
Fui calamidade na noite
Agora tudo é folhagem dispersa
Tudo é silêncio
Tudo é nada

A madrugada chega flamejante
E com ela
Andrajo
Pedinte
Andarilho pelo tempo

Pinta grafitis nas paredes
Agitam-se sombras loucamente
Inicia-se a fuga
Junto ao ventre imaturo

O desejo escorre
Como restos de pingos de chuva nas vidraças
No rio afogou-se o último suspiro da noite
Tela: DM = MD

Incapacidade


Não te posso deixar, sem me sentir ir
Não me posso salvar, sem tentar curar-te
Não me posso queixar, sem saber ouvir-te
Não me posso calar, sem saber distinguir os sons do silêncio
Não te posso guiar, sem saber ouvir os sinais...

Não posso nada sem ti

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Indefinição

                                                       Paranoiac Visage – 1935 Dali


Veio de muito longe
Despedir-se do sol

Trazia um manto 
Para sossegar os olhos
E realçar a dor 
Tingida de branco

Triturou o ar 
Com o seu 
Bafo quente

Foi só por uma vez
Que mirou o seu reflexo
No círculo 
Que seus olhos traçaram

Cárcere inabitado por todos
E ele definhava ali mesmo

Chamas esvoaçantes
Culminaram na intrometida esfera
Aglutinando o pensamento abstrato

(Tinha dado continuidade 
Ao seu corpo
No limite dos seus passos)

Excomungada a sua alma
Adivinhava um novo tempo
De espera

Pereceu 
Sem que todos os astros
Formassem fila única
E lhe mostrassem
A sua última viagem

Seria ali a criação
Dum novo paradigma
Contrastando com a imagem
Agora indefinida

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Tão breve


Sentada e recostada nesta cadeira, vejo-te passar em busca de alimento diário.
Tão breve é a minha passagem pela tua queda, que me junto a ti para te ajudar a erguer, para que sigamos caminho junto dos nossos semelhantes.
- Semelhanças que são como andrajos arrastados pelo vento, imagens distorcidas e envelhecidas pelo tempo em que não andávamos, mas rastejávamos.

Fecho os olhos, e ainda assim, vejo uma imagem indefinida tocada por alta voltagem a apontar em todas as direções, mas sem conseguir tocar qualquer ponto. Levanta-se um dedo e não atinge sequer a dimensão de um ponto.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Outros movimentos


(...) 
Na rua escura, desenhava nas suas pedras, uma esfinge cor do ouro e trazia um sol brilhante para junto dela. Via de quando em vez,  as pessoas que passavam e a rua era muito estreita para a aventura que o esperavam os longos anos que se aproximavam por outras vistas e outras ruas, onde os fundos existem para dar ainda mais cor à cor aos seus olhos. Gostava de ver os rostos na conquista de mais um rosto, uma figura expressiva que lhe devolvesse algo que ia perdendo com o passar do tempo. Alimentava-se dos seres que o visitavam nas noites de angústia e de solidão, quando no seu quarto se dispunha a sonhar com um mundo fantástico, onde pudesse revelar-se um ser, caminhando por todas as ruas. Ela a mulher que o tem, sabe-o em outros movimentos mais de acordo com a vontade que todos os homens têm. Terem uma puta na cama. Reconstitui cenas, elabora um puzzle bem à medida dos seus desejos. E se ela se mostrasse outra Maria qualquer, iria dar no mesmo? Ele amá-la-ia da mesma forma? E se ela se transformasse numa puta? Ainda não esqueceu aquele fetiche. Ele pagar-lhe para ter sexo com ela. Porque razão então tantos homens, as procuram? Às putas. Deve haver um motivo muito forte, para levar um homem a procurar os seus serviços, quando em casa tudo está ao seu dispor e de graça, com todas as graças exigíveis para não desequilibrar o orçamento familiar.
Primeiro passo, seria comprar roupa, lingerie adequada. Depois, preparar o ambiente noturno, o exterior e o interior. Ele irá encontrá-la numa rua escura. Ela dirige-se a ele, quer saber se gosta do que vê. Se a quer. Ele dir-lhe-á que sim e pergunta-lhe quanto cobra pelos seus serviços. Acordo feito e aí está uma transformação bem real sob as fantasias no submundo do sexo. Outras ruas, outros fundos, onde o amor se compra, fazendo do sexo um tráfico de corpos ambulantes na noite. A noite é sempre o ilusório transfigurando os gestos que ficaram esquecidos em qualquer lugar. Uma casa vazia, uma cama desfeita, onde uma mulher se deita e ali fica á espera que o seu homem se sinta mais homem, tocando os fundos de outras ruas (...)

(Dolores Marques – Ao Fundo de Mary)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Ela a cidade...


(...)
Mary sente que este homem lhe trará vivências de um passado também dela a desviar-se de fundos inexistentes. A comunicação à distância é uma fonte de luz que lhe indica algo que começa a ser percetível, sempre que as mensagens chegam pela manhã e se estendem até ao final da tarde. Depois vem um silêncio inquieto que se transforma em becos e ruelas nos seus sonhos. A noite vai e vem e a distância é medida por algumas frases que esboça sem saber bem o que fazer com elas. Mary, lê e relê as mensagens na esperança de obter alguma pista para entender o que é este amor, ou pretende ser na sua vida. O amor revela-se através das mais variadas formas. Há quem morra por amor, há quem mate por amor, há quem viva para morrer de amor, mas ela só quer sentir que o amor vive nela e possa finalmente atingir o fundo de uma rua onde ele a espera para juntos permanecerem. A meio da tarde, o silêncio da noite ainda permanece vivo no seu corpo. Sai para beber um café e senta-se numa das mesas da esplanada a olhar os rostos que passam.

Passou de relance uma figura, por entre os círculos de fumo que expirava lentamente. A sua pele escura e o seu jeito de andar balançando o corpo, fizeram-na lembrar os rituais à volta de um fogo ardente, onde os corpos se submetem aos ritos tribais do passado. Os seus olhos, pontos luminosos a saírem da órbita dos meios círculos traçados pelo fumo saído da sua boca semiaberta. Trazia neles, o mundo a dobrar-se sobre os seus ombros. A sua mochila já perdeu a forma redonda. O seu almoço, era preparado talvez por uma Maria qualquer que o acarinhava sempre que chegava cansado e com alguns restos de cimento no seu corpo. A obra ali de frente está quase a terminar e ele irá em outras, torneando as paredes alisando-as para dar vistas novas a outras figuras. O homem acolheu-a sem uma palavra que lhe dissesse que há mundos por descobrir nos seus olhos cor de chumbo. Olhou-a e disse simplesmente: “boa tarde”. Ela respondeu timidamente: “Boa tarde” ao que ele lhe devolveu: “bom descanso”.
Sorriu e pensou, que este final de tarde talvez lhe tenha dado uma ideia para conseguir acabar de fumar aquele maldito cigarro, apagando-o, e voltar aos pontos luminosos de uns olhos quase a quebrar as linhas impostas pelo seu pensamento. Este é um recanto de uma cidade fria. Dormita no silêncio de um dia e desperta para uma noite em branco. No entanto, sabe-se que há olhares que não se esquecem de dizer “boa tarde”; “bom descanso”, e ela, a cidade ainda a consome.(...)

(Ao Fundo de Mary - Dolores Marques)