segunda-feira, 30 de maio de 2011

Tracejado de um olhar

(Desenho de António Moura... Eu)


As formas mediáticas de um verdadeiro sabedor de artes antigas, são aquelas que por norma se direccionam para um momento de verdade, onde os seus olhos se opõem ao senso comum e passam a ser o próprio senso, veredicto final em justa-posição com o tracejado de um olhar que é só seu. São elas um misto e contradições, que de algum modo, transformam os seus dedos em armas poderosas ao tocar todos os cantos escuros onde descanso os sentidos, ao depositar o meu olhar na sua vertente mais conciliadora de espaços fechados.


Deixar-me conduzir por um sonho, onde dormente, o corpo se despe de alguns trajes do passado, é tentar galgar as colinas que no seu corpo se alteiam, encontrar-me nas margens secas do seu rio, onde me afogo em cada poro e me refaço felina na sua forma mais viril, e à sua semelhança, ser a forja de algumas palavras que o façam voltar atrás, e refazer o meu jeito de aconchegar o meu peito no seu corpo, enquanto a noite chega.

O meu céu

(desenho de Antonio Moura...Eu)


Enquanto as brumas da memória não se diluírem neste esconderijo, eu serei só uma parte de ti e tu outra parte de mim a saber-me perto do teu olhar. Em todos os lugares, o meu refúgio se abate quando a noite é minha conselheira e o dia se prepara para se entregar de mãos cheias no meu silêncio.


Quero fazer do teu corpo, dono de um momento a cismar na minha boca e dos teus olhos um caminho para a seguir viagem por entre todos os pontos escuros onde a força que me deu vida se esconde. Já nada me pode prender aqui, se os mesmos olhares que me descobriram não me orientarem neste trajecto, sem tempo para voltar. Por isso atenta no meu sorriso que se fecha para dar espaço aos teus dedos, e alento ao teu querer ser; um no meu corpo e outro no meu céu ainda por desbravar.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Lugar vazio




(Desenho de António Moura)



Quando chegar, já nada me interessa, a não ser o que fiz, para que no caminho conseguisse deixar pegadas frescas a tentar seduzir um trajecto adverso aos meus próprios passos. Sou eu a movimentar-me assim, de uma forma que transcende este modo de querer ser uma, duas, ou várias formas a caminhar por entre as insígnias caídas. Foi uma forma de me inteirar de um mundo que ruiu, sem que eu pudesse fazer algo que me conduzisse para lá de um sonho enquanto dormia, e a terra ficava parada esperando o grande dia da minha nova vontade de caminhar, ou simplesmente me transformar na sua forma redonda.

Sempre me vi sozinha neste diluído termo, onde encaixo a dor e me estendo ao comprido, para que tão só como nasci, tão só morrer sem deixar rastro num caminho que só serviu para calcar a terra e amolecer as dúvidas que tive enquanto mulher que se quis pessoa, e pessoa que se quis mulher, a amar a vida nas suas mais bizarras formas. São mostras de um mundo meu, por nada ser, quando me vi a caminhar só, e tão só fiquei com este efeito molhado, através de pequenas nuances que brilham nos contornos de uma pequena história que se assemelha a um lugar vazio, onde as árvores crescem e os pirilampos adormecem.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Quero mas não sei





Quero mas não sei como afirmar-me
No meio das gentes
Daquelas todas que querem tudo
E não sabem como um querer
Se movimenta no seio do mundo


Quero mas não quero nada
Que venha a quebrar as vozes
Dos mais afoitos
Devotos no seio materno
Onde o corpo se faz vida
E a vida se faz corpo com corpo

Quero mas não posso imaginar-me
A escalar montanhas
Sobrevivente dos holocaustos
Onde as gentes se agitam
De olhos fechados
E de braços abertos
Espalham as notícias
Do seu pequeno mundo
E de boca em boca
Tentam animar os céus

Quero mas sem saber
De um verdadeiro querer
Que nasce no olhar
De quem perdeu o nome
Nas bocas de quem

Se escondeu da fome
Nos corpos de quem quer saciar
O mais duro querer
Nos escombros onde se ajeitam
Todos os moribundos da terra
Todos os saltimbancos
Na falésia do seu próprio corpo
Onde cresce o medo
Esse buraco a crescer
Nas pupilas dos seus olhos

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Espaço Sideral



Sei que posso
Mas não quero
Sei que quero
Mas não devo
Sei que amo
Mas tenho receio
De todos os pontos no Universo
Onde os meus olhos descansam

Sei de tudo o que me seduz
Quando abro à noite a janela
E m’ encontro
A preencher os espaços em branco
No Espaço Sideral

Sei que vou
Mas não tenho pés para andar
Sei que estou
Mas não tenho formas de estar
Sei que me vejo
Mas não me reconheço

Só sei que há um amor livre
Inscrito nas palmas das minhas mãos
E eu não sei como to doar

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Vejo-te








Quando não te olho para te dizer que te gosto





é porque te vejo, mesmo de longe.





(A querida Et Freire)

Loucura

Terrível esse torpor enfraquecido

Essa reafirmação

De como sair de um estado

E entrar numa invocação

A atingir níveis indesejáveis
De uma loucura
Aparentemente saudável