terça-feira, 24 de março de 2009

À Espera...

Perco-me sempre nos meus sonhos…

Quero ser em tudo
E esqueço quem sou
Nesta que é, a terra criada
À margem de ninguém
Onde as quimeras se gastam

Procuro-me por aí fora de tempo…

Ando desnorteada
Atempado é o meu posto
E encontro-te sempre algures
Mas não me vês daí
Quando sorrio para ti

Há uma página em branco à espera…

Lanço-me daqui...
Este é o último voo
E as palavras escorrem-me
Pelas pontas dos dedos
Arrumei o último capítulo

Partiu em dois...
Os dias
Que me levaram a mim...

segunda-feira, 23 de março de 2009

Surfando


Assolam-me ondas de cristais
Sou um equilíbrio forçado
Latejando...
Deslizo por teus ombros
Sugo-te a força das marés
E tu sentes o meu bafo quente

Sou na onda que me quer
Bem ou mal
Não sei!
Mas vou surfando
À luz do sol
Até embocar na noite

Aí...Adormeço na lua
Qual feitiço me toma sua

segunda-feira, 16 de março de 2009

Um Cheiro a Terra Na Suavidade do Alecrim do Monte

Renovo-me sempre
Quando me perco
Nos caminhos da incerteza

A morte que cai por terra
Desfaz-se em pedaços
E a luz que anda a monte
Traz paisagens
De um mundo triste

E a solidão chora!

Chora pela terra agreste
Que a viu nascer
Antes do tempo

Eu quero um sorriso nu
Onde a desgraça se perde
Em avenidas estreitas
Quero a livre vontade dos povos
Saciada em ti

E a voz canta !

Canta nos rios
Que ficaram perdidos
Na terra de ninguém

O sonho é colorido!
Na face rosada
Há um rosto magro
E plantado na tez
A suavidade do alecrim do monte

E a boca sorri !

Em lábios fartos
Deitam-se os dias calmos
E cobrem-se da cor da paz

Busco-a inteira
Na esperança de cair
Por sobre a terra
Uma flor do monte
Que se abre a nós

E a nudez é plena!

Tem no olhar a plenitude
Volúpia escondida
Sobre o mar

Quero penetrar-lhe
Sem saber quem sou
Límpida da cor das águas
Plantarei nas ondas
Cascatas guardadas nos meus olhos

E o corpo é um ritual!

Dança sempre
Na esperança de ter
Um mundo a sorrir

E ele sorri sem parar
Busca-me um corpo nu
Um cheiro a terra
E um rio que se esquece
De dançar no mar

terça-feira, 10 de março de 2009

A Morte


Nada como falar da vida e o do que nos faz ser em liberdade, através do despertar de consciências, quer individualmente, quer no colectivo, (que são uma só), para nos levar a falar da morte.
A morte que chega de mansinho, sem bater à porta, sem fazer barulho, sem grandes desassossegos para uns, e com grandes perturbações para outros, mas que nos priva dos que mais gostamos, dos que nos são próximos...

Enfim, e por fim... que nos priva de nós!
Somos o reflexo do que ficou do outro em nós e nada nos pode aniquilar essa pertença. Por isso o que é a morte, se o outro continua em mim, através das vivências, das alegrias, das partilhas, das amizades.... e por fim o AMOR. Essa palavra que anda na boca de toda a gente - é quase como aquela célebre frase "como evocar o nome de Deus em vão". O Amor opera mudanças drásticas no ser humano, se ele se abrir ao amor. Porém essa abertura é lenta e dolorosa...

Se soubermos como olhar a morte de frente, e aprendermos a conviver com ela, daremos mais um avanço naquilo que é a nossa passagem por este mundo.
A conquista de outros mundos se avizinha sempre, quando iniciarmos a grande jornada solar, até ao infinito de nós, passando pelo infinito mundo das estrelas.
Neste que é um mundo das ideias e dos pensamentos, seremos um mundo a descobrir sempre que nos descobrirmos, e são esses passos que nos levam para aquilo que eu chamo de jardim da vida.
Neste jardim as flores não se perdem, transformam-se através das mudanças, que se operam nas grandezas de um céu que se expande e nos recorda a todo o momento, quem somos.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Morri Para Ti

Machuco-me por dentro só de nos imaginar
Um mundo ainda por nascer
E pensar que podia eu levar-te a ver as estrelas
Focaram-se na lua na noite finda
E viram-te a sondar um sonho na alvorada

Na lua, há restos de sol caídos no chão
Inundam as crateras que dormem sobre a noite fechada
Os teus ideais soltaram-se nas fragas soltas
E aconchegaram-se no pó que fareja o vento
Mas ele foi-se num suspiro

E eu fiquei ás voltas com o tempo em que via os rios
Os mares tenebrosos caiam-me sobre os ombros
E eu deitava-me e dormia

Dormia tanto...mas acordava nas madrugadas
Os meus olhos secos e as lágrimas caídas
Rolavam pelo chão
Já me afogavam o leito
E num espanto eu dormia...dormia

Mas tu não vês o que o sono me traz
E choras lágrimas que se prostram aos pés do vento
E o vento rasgou as vestes que trazia
E tu ficaste só ao relento

Que há a haver....a não ser esperar por mim
As marés calmas abalroam-me sempre nas tristes madrugadas

Não vês que não nasci para ser
Nus versos...
Que se curvam ao vento que passa?
Eu sou o que desejas na lonjura dos teus caminhos
A tua busca interminável

Mas já morri para ti
E não me queiras germinar de novo
Quero renascer num poema só
Que me leve...
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sábado, 28 de fevereiro de 2009

O Que Nos Move

Serão as dores
De um momento
Será a cor do saber
Que nos corre nas veias
Será o sorriso cristalino
O sentimento
No olhar de uma criança
Que nos traz
O mundo divino?

Não!

O que nos move
São os gestos
Que nos escorrem
Pelas pontas dos dedos
Em mãos esqueléticas
E mentes frenéticas

São quase sempre
As meias verdades
As partilhas
Num mundo de vaidades
As dores alheias
Que medeiam
As gigantescas dunas

O que nos move?

Serão os olhares perdidos
No horizonte
E as luas que se esgueiram
Por vales inteiros
Em busca de um pão
De um términos
E de uma vida
Que se perde
No fantástico mundo
Em constante absorção?

Não!

O que nos move ensandece-nos
Nas curvas e nas colinas
Em busca de um sol
Que se entregue
E nos sustente as ideias
Num mundo perdido
Onde somos
Só um não!
As verdades
Que se escondem,
Enigmáticas,
Sorrateiras
Que se esventram
Nas paredes da ilusão

Serão os caminhos imprecisos
Os ventos e as marés
Que se encostam à ré
Imagino-te por aí
Sentado em busca de pão

É o líquido que coalha
É a massa que leveda
E o forno aguarda por mais
Uma fornada
Que dê tudo
Menos pão

O que nos move?

Serão as sementeiras
E as papoilas
Que se entregam
Neste mar
Em constante ondulação?

Ou o sol que se deita
No lusco-fusco
Onde as estrelas
Se alimentam
E se enfeitam de tiaras
Que a seara fabricou?

Não!

O que nos move
São as dores arreadas
São as foices afiadas
Os braços caídos
E os joelhos no chão

E os grãos no crivo
Sustendo a leve
Embarcação
Curvam-se perante
Esta agitação
Só por um naco
De pão!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

É o Meu Sonho

São os gritos
Que se escondem
Por detrás
De cortinas fechadas
E se levantam
Nas tristes madrugadas

É o meu sonho!
Que inunda
A gigantesca alvorada

É o meu corpo!
Que se aconchega
No final de uma longa
Caminhada

São os gritos constantes
Que me saem da garganta
Roucos,
Infames,
E gastos, pela cor
Que lhes empresta
A noite…

É o meu sonho!
Que dorme na solidão
Uma tonalidade
Acobreada…

No cinzento dos dias
Caminho sempre
Às vistas de um mundo
Que sofre por nada

É o meu corpo dorido
É o meu olhar sofrido
Que se alonga
Na fluidez
De uma qualquer
Embriaguez

Canto-te versos singelos
Que se espantam
E que se querem
Na rua sentados
Ou nos beirais
Dos telhados
Cantados…

Há uma luz que invento
Há uma tonalidade rara
Que se estende
Nas noites
Em que te busco
Acordada

Um lamento!
Choro por quase nada
E o nada
Anda de mãos dadas
Pelos cantos do mundo

Eu aqui…
Choro lágrimas ao sol
Não me vês
Não me encontras
Neste que é
Um caminho cruzado

Sou só Eu e Tu
Neste mundo encantado
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